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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


"Contos de Loop" - O problema de querer que algumas coisas durem para sempre

Ficha da sérieTítulo: Contos do Loop

Título original: Tales from the Loop

Ano: 2020

País: Estados Unidos

Gênero: Ficção científica, drama, fantasia e mistério

Temporadas: 1

Episódios: 8

Plataforma: Prime Video

Criação: Nathaniel Halpern

Inspiração: obras do artista sueco Simon Stålenhag

Direção: Mark Romanek, Jodie Foster, Andrew Stanton, Charlie McDowell, So Yong Kim, Ti West e outros

Trilha sonora: Philip Glass e Paul Leonard-Morgan

Ambientação: uma pequena cidade construída em torno de uma instalação experimental subterrânea conhecida como “Loop”

Temas centrais: tempo, memória, identidade, infância, desejo, inveja, perda, solidão, amor, envelhecimento e permanência.

 

                           

Sinopse:

Em uma pequena cidade, moradores convivem com fenômenos impossíveis provocados por uma instalação científica subterrânea. Cada episódio acompanha personagens e conflitos diferentes, mas todos estão ligados pelo mesmo universo. A ficção científica funciona menos como espetáculo e mais como instrumento para falar das fragilidades humanas, especialmente daquilo que queremos mudar, recuperar ou fazer durar.

 

✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️

 

Comecei Contos do Loop achando que estava entrando em uma história de ficção científica.

 

Máquinas estranhas. Um laboratório subterrâneo. Objetos que fazem coisas que não deveriam ser possíveis. Um lugar onde ninguém parece muito espantado com o impossível.

 

Só que, depois de três episódios, as máquinas começaram a me interessar menos.

 

As pessoas, muito mais.

 

E talvez porque eu esteja vivendo uma fase da minha vida em que algumas coisas estão chegando perto demais.

 

A série é silenciosa... E a música também é!

 

Ela não entra para avisar que você precisa sentir alguma coisa. Não força emoção. Fica ali, quase escondida, acompanhando aqueles vazios enormes entre uma pessoa e outra.

 

Às vezes é uma nota só.

 

E aquilo basta.

 

Tenho pensado que a vida também é assim.

 

As coisas que mais me marcaram nesses últimos meses não vieram necessariamente acompanhadas de grandes acontecimentos. Algumas começaram numa conversa. Num olhar. Numa fotografia. Numa curiosidade. Num desejo que apareceu sem que eu tivesse planejado.

 

A gente vai vivendo e, de repente, descobre alguma coisa sobre si mesma.

 

E nem sempre gosta do que descobre.

 

Contos do Loop fala muito de descoberta.

 

Da criança descobrindo que os adultos não sabem tudo... Do adolescente descobrindo o corpo, o desejo, o amor... Do adulto descobrindo que o tempo passou enquanto ele estava ocupado vivendo.

 

Mas tem uma descoberta mais incômoda ali.

 

A descoberta de que, às vezes, a gente gostaria de ser outra pessoa...

 

Isso me pegou!

 

Porque existe uma inveja que não é exatamente querer aquilo que o outro possui.

 

É querer sentir o que imaginamos que ele sente... Querer a liberdade dele... O corpo dele... A idade dele... A coragem... A vida aparentemente mais simples e a possibilidade de começar de novo.

 

Olhar alguém e pensar, mesmo que por alguns segundos:

"como seria estar dentro da vida dele?"

 

Isso é feio de admitir!? Mas é tão humano...

 

Eu já olhei pessoas mais jovens e pensei na liberdade que elas ainda têm pela frente. Já olhei quem consegue simplesmente ir embora e senti inveja dessa capacidade de não criar raiz em tudo. Já desejei a leveza de quem parece não pensar tanto.

 

E talvez eu tenha desejado ser outras versões de mim também.

 

A mulher que não se envolve tanto... que não pergunta... que não procura significado... que consegue viver uma noite como uma noite e acordar no dia seguinte sem transformar aquilo em literatura.

 

Só que eu não sou essa mulher.

E estou começando a achar que tudo bem.

 

Porque existe outra coisa muito bonita na série: em algum momento, diante de todo aquele impossível, a gente acaba encontrando a própria criança.

 

E encontrar nossa criança não é necessariamente uma coisa doce.

 

Às vezes é doloroso pra caramba. Porque aquela criança ainda está ali. Ainda querendo ser escolhida... Ainda querendo saber por que alguém foi embora... Ainda querendo ouvir que é importante.... Ainda acreditando que, se amar direito, talvez consiga impedir alguém de partir.

 

Talvez seja por isso que determinados encontros adultos mexam tanto com a gente.

 

Não é apenas a mulher desejando um homem.

Às vezes existe uma menina antiga ali dentro perguntando: "você vai ficar?"

 

E isso muda muita coisa.

 

Muda inclusive a maneira como amamos.

Porque o amor adulto deveria saber que ninguém pertence a ninguém.

 

Mas existe uma parte muito primitiva da gente que não quer saber disso.

 

Ela quer eternizar.

Quer guardar.

 

Quer congelar aquele instante antes que alguma coisa estrague.

 

E o terceiro episódio me atravessou exatamente aí.

 

A ideia de duas pessoas querendo fazer um momento durar para sempre parece romântica.

 

Até a gente pensar direito.

 

Porque o que estamos tentando eternizar quando queremos eternizar alguém?

 

A pessoa?

 

Ou quem nós somos quando estamos com ela?

 

Talvez essa seja uma das perguntas mais dolorosas que a série me trouxe.

 

Porque algumas pessoas despertaram coisas em mim nesses últimos meses.

 

Desejo.

Vaidade.

Ciúme.

Insegurança.

Tesão.

Coragem.

Medo.

 

Uma vontade absurda de escrever.

 

E em alguns momentos eu achei que queria aquelas pessoas.

 

Hoje não tenho tanta certeza.

 

Talvez eu quisesse também a mulher que eu era perto delas.

 

A mulher desejada... curiosa que ainda conseguia se surpreender... A mulher capaz de atravessar uma cidade para encontrar alguém.(rs)...

 

A mulher que ainda acreditava que uma conversa podia mudar o rumo de uma noite... A mulher que conseguia sentir frio na barriga.

 

Essa mulher eu quero conservar.

 

As pessoas, não necessariamente... E existe uma diferença enorme nisso.

 

Talvez seja por isso que escrevo tanto.

 

Escrever é meu jeito particular de brigar com o tempo. Eu não consigo impedir alguém de partir.

 

Mas consigo guardar uma sensação.

 Uma frase... Uma música... Um cheiro... Uma cidade... Uma cama desarrumada.

Uma ausência!

Uma coisa que alguém disse sem sequer imaginar que eu lembraria meses depois...

 

E, quando escrevo, aquilo permanece um pouco.

 

Não a pessoa.

 

O que ela provocou em mim.

Talvez seja essa a única eternidade possível.

 

Não aquela em que alguém fica para sempre ao nosso lado.

 

Mas aquela em que alguma coisa que vivemos passa a fazer parte de quem somos.

 

É estranho perceber isso aos 45+...

 

Porque eu imaginava que nessa idade algumas perguntas já estariam respondidas.

 

E não estão!

 

Continuo descobrindo meu corpo... Continuo descobrindo meus limites... Continuo sentindo inveja... Continuo desejando... Continuo querendo fugir de algumas coisas e desesperadamente querendo que outras fiquem.

 

Continuo encontrando pedaços daquela menina que fui em lugares onde eu jurava que só existia a mulher que me tornei.

 

Talvez amadurecer não seja matar essa menina.

 

Talvez seja finalmente conseguir sentar ao lado dela.

 

E dizer:

 "eu sei que você queria que ele ficasse.:

 

Eu sei que você queria que aquele momento durasse... Eu sei.

 

Mas olha tudo que ficou em nós.

 

Contos do Loop, até aqui, está me parecendo menos uma série sobre máquinas capazes de alterar a realidade e mais uma história sobre a nossa dificuldade de aceitar a única realidade que nunca conseguimos alterar:

 

tudo passa.

 

A infância... A juventude... Os corpos... Os pais... As paixões... As cidades... As pessoas...

 

Nós!

 

E talvez por isso a música seja tão importante naquela história... Porque música é exatamente isso, acaba!

 

Mas alguma coisa continua tocando dentro da gente depois do silêncio.

 

Talvez algumas pessoas sejam assim também.

 

Elas não foram feitas para permanecer.

Foram feitas para tocar alguma coisa em nós.

 

E ir.

 

O problema é que, às vezes, quando a música é bonita demais, a gente aperta o replay.

 

De novo...

De novo...

De novo...

 

Talvez esse seja o nosso verdadeiro Loop.

 

✨️✨️✨️

"As vezes as coisas são especiais,

Porque não duram..."

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 09/08/2026
Alterado em 09/08/2026
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