google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0

... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Post que gerou a Crônica.

Eu tenho um problema com histórias que já chegam com uma data marcada para começar.

 

Principalmente quando essa história é uma guerra.

 

Porque quando alguém decide onde começa uma guerra, de certa forma também decide o que você vai enxergar dela.

 

Nos últimos anos, nós nos acostumamos a falar de Israel e Palestina quase sempre a partir do dia 7 de outubro de 2023.

 

Hamas atacou Israel. Pessoas foram assassinadas. Houve sequestros. Houve terror.

 

Isso aconteceu.

 

Não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer isso.

 

O que eu tenho dificuldade é em aceitar que a história tenha começado ali.

 

Porque não começou.

 

Esses dias encontrei uma publicação mostrando um documento antigo, daqueles com carimbo de “desclassificado”, páginas envelhecidas, CIA escrita em cima e uma manchete forte falando sobre Israel, terrorismo, propaganda, massacre.

 

Esse tipo de coisa me chama atenção, mas também me deixa desconfiada.

 

Porque hoje basta colocar “documento secreto da CIA” numa postagem e pronto. Metade das pessoas acredita sem ler e a outra metade chama de mentira sem ler também.

 

Então fui procurar entender o que era aquilo.

 

O documento existe.

 

Está nos arquivos da CIA.

 

Mas existe uma diferença importante que a postagem praticamente engole: aquilo não é um relatório da CIA concluindo tudo aquilo.

 

É um artigo escrito em 1978 pelo então senador americano James Abourezk, publicado na revista Penthouse, e que foi arquivado pela agência.

 

E eu faço questão de dizer isso porque não quero combater narrativa usando outra narrativa.

 

Se vou questionar manipulação de informação, preciso começar não manipulando a informação que favorece o meu próprio argumento.

 

Só que tem uma coisa.

 

Descobrir essa diferença não fez o restante desaparecer.

 

Foi aí que eu comecei a ler sobre Deir Yassin.

 

Abril de 1948.

 

Uma aldeia palestina.

 

Homens, mulheres e crianças mortos numa ação realizada por integrantes do Irgun e do Lehi, organizações armadas sionistas daquele período.

 

E 1948 é muito antes de 7 de outubro de 2023.

 

Parece uma observação óbvia.

 

Mas talvez não seja.

 

Porque eu fiquei pensando em quantas pessoas, inclusive eu em vários momentos da vida, conheceram esse conflito começando pelo capítulo que estava passando no jornal.

 

A gente conhece o ataque.

 

Depois conhece a resposta ao ataque.

 

Depois a resposta da resposta.

 

Vê prédio caindo... criança sendo carregada... 

Refém... corpo... mãe gritando.

Têm soldado... bandeira.

 

E rapidamente alguém aparece para explicar de que lado devemos ficar.

 

Talvez o problema comece justamente aí.

 

Eu não quero precisar escolher qual criança morta merece mais a minha indignação.

 

Não quero precisar diminuir o horror do 7 de outubro para reconhecer o sofrimento palestino.

 

Da mesma forma que não preciso apagar décadas de expulsões, ocupação, deslocamento, violência e morte de palestinos para reconhecer o horror cometido pelo Hamas.

 

Uma coisa não limpa a outra.

 

E uma vítima não ressuscita porque encontramos uma justificativa histórica para quem a matou.

 

Mas história importa.

 

Importa muito.

 

Porque quando retiramos tudo o que aconteceu antes, qualquer reação pode parecer o começo.

 

E talvez essa seja uma das ferramentas mais eficientes de uma narrativa política: escolher o ponto zero.

 

Você começa a contar exatamente no momento em que o seu lado foi atacado.

 

Tudo que aconteceu antes vira rodapé.

 

Foi isso que ficou na minha cabeça depois daquele documento.

 

Não foi a CIA.

 

Não foi sequer o artigo de 1978.

 

Foi a facilidade com que nós aceitamos histórias cortadas.

 

E isso não acontece somente no Oriente Médio.

 

Acontece na política, nas guerras, nas disputas territoriais, nas relações entre países e até nas nossas relações pessoais.

 

Quem escolhe o começo da história já entra com uma enorme vantagem sobre quem vai julgá-la.

 

Por isso eu tenho cada vez mais dificuldade com certezas rápidas.

 

Principalmente aquelas que cabem perfeitamente numa postagem.

 

Israel não nasceu no dia 7 de outubro de 2023.

 

A questão palestina também não.

O Hamas não explica 1948.

 

Deir Yassin não explica sozinho tudo que aconteceu depois.

 

E nenhum documento isolado vai explicar quase oitenta anos de uma história atravessada por religião, território, colonialismo, nacionalismo, terrorismo, ocupação, interesses internacionais, medo, vingança e gente comum tentando simplesmente continuar viva no meio disso tudo.

 

Talvez seja justamente por isso que seja tão perigoso conhecer uma guerra somente pelo último capítulo.

 

Eu continuo sem querer trocar uma propaganda por outra.

 

Continuo desconfiando de manchetes perfeitas demais.

 

Continuo querendo saber quem escreveu, quando escreveu, por que escreveu e de onde saiu a informação.

 

Mas fiquei com uma pergunta que acho mais importante do que qualquer uma dessas:

 

Quanto daquilo que defendemos com tanta certeza nós realmente conhecemos?

 

Porque talvez não estejam escondendo a história inteira de nós.

 

Talvez seja mais simples... Ou tenham apenas nos ensinado a começar a leitura na página conveniente.

 

E nós nunca tivemos curiosidade de voltar algumas páginas.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 08/08/2026
Alterado em 08/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras