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O CACIQUE COBRA CORAL, O EL NIÑO E A NOSSA MANIA DE ESPERAR A ÁGUA SUBIR.
FUNDAÇÃO CACIQUE COBRA CORAL - Instagram
Eu vi a notícia da Prefeitura do Rio renovando um acordo com a Fundação Cacique Cobra Coral por 25 anos e, confesso, a primeira coisa que me chamou atenção não foi o cacique.
Foi o El Niño.
Porque enquanto todo mundo corre para os comentários para discutir espírito, religião, charlatanismo, fé, macumba, ciência, eu fiquei pensando numa coisa muito mais simples: nós estamos preparados para o que vem pela frente?
Porque o El Niño não precisa que ninguém acredite nele.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais incômoda dessa história.
Eu não tenho problema nenhum com a fé de ninguém. Cada um acredita no que quiser. Inclusive acho de uma pobreza enorme transformar qualquer discussão sobre espiritualidade em deboche religioso.
Minha preocupação é outra.
Quando um governo fala de clima, eu quero saber de drenagem. Quero saber de Defesa Civil. Quero saber de barragem, encosta, canal, macrodrenagem, microdrenagem, saneamento, ocupação de área de risco, plano de contingência, manutenção preventiva.
Quero saber quem está olhando os dados... Quem está olhando a infraestrutura... para o território. E principalmente: quem está fazendo alguma coisa antes de acontecer?
Porque essa história a gente já conhece.
Chove muito... Alaga. Faz calor demais... Falta água. O rio sobe... A população perde a casa. A encosta desce... Morre gente.
A estrada rompe. A ponte fica interditada. A cidade para.
Depois aparece todo mundo... Prefeito, governador, ministro, Defesa Civil, máquina, coletiva de imprensa, decreto de emergência, contratação emergencial.
E dinheiro. Muito dinheiro.
Dinheiro que aparece rápido depois da tragédia e que, curiosamente, parece sempre muito mais difícil de encontrar quando alguém pede prevenção.
É isso que me incomoda.
O Brasil continua tratando evento climático extremo como surpresa.
Não é.
Nós temos previsão meteorológica, série histórica, modelagem hidrológica, sensoriamento remoto, mapas de risco, universidades, institutos de pesquisa, profissionais excelentes e tecnologia suficiente para saber onde boa parte dos problemas vai acontecer.
Talvez não saibamos o dia e a hora exatos.
Mas sabemos onde a água vai procurar passagem.
Sabemos quais canais estão estrangulados.
Sabemos quais cidades cresceram sem drenagem suficiente.
Sabemos onde existem ocupações vulneráveis.
Sabemos quais sistemas de abastecimento entram em dificuldade numa estiagem longa.
Sabemos quais estruturas não suportam determinado regime de chuva.
Eu trabalho olhando infraestrutura. E depois de algum tempo olhando obra, contrato e operação, a gente aprende uma coisa muito básica: problema que todo mundo conhece e ninguém trata deixa de ser imprevisto.
Vira escolha.
Por isso a notícia do Cacique Cobra Coral me fez pensar muito menos no Cacique Cobra Coral do que nos governos.
O acordo do Rio é não oneroso. Não há transferência financeira prevista. Ótimo.
Mas eu gostaria de ver o mesmo entusiasmo administrativo para contratos de manutenção preventiva, limpeza de canais, atualização de mapas de risco, estudos hidrológicos, fiscalização de ocupação, recuperação de drenagem e preparação das cidades para extremos climáticos.
E não estou falando só do Rio.
Aqui na Amazônia isso me preocupa ainda mais.
Nós estamos numa região em que água demais e água de menos conseguem produzir desastre.
O mesmo território que alaga pode sofrer com seca.
O rio que sustenta transporte, alimento, economia e comunidade pode chegar a níveis críticos.
O calor interfere na saúde, no trabalho, na energia, no abastecimento.
E ainda tratamos clima como assunto de previsão do tempo.
Não é.
Clima virou assunto de infraestrutura... De orçamento, planejamento urbano, saneamento, energia... Além de saúde pública... De gestão de risco. E, portanto, de governo!
Se o Cacique Cobra Coral consegue ou não interferir no clima, eu não tenho competência para afirmar. A ciência tem seus critérios. A fé tem os seus.
Mas existe uma coisa sobre a qual não precisamos de nenhum intermediário espiritual.
Canal assoreado precisa ser limpo. Drenagem subdimensionada precisa ser corrigida. Encosta instável precisa ser monitorada. Barragem precisa ser inspecionada.
Cidade vulnerável precisa ter plano de contingência.
E governo precisa planejar. O El Niño não vai esperar licitação. Não vai esperar orçamento. Não vai esperar troca de secretário. Não vai esperar o próximo prefeito assumir.
E certamente não vai perguntar em quem nós acreditamos.
Vai chegar.
Minha preocupação é saber o que nós fizemos enquanto ainda dava tempo.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 08/08/2026
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