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O incômodo de não aceitar a verdade pronta...Começou com Gaza.
Ou talvez não.
Talvez tenha começado quando alguém decidiu que, para discordar dele, eu precisava primeiro “ter um tempinho para estudar”.
Confesso que a frase me incomodou mais do que deveria. Não porque eu tenha qualquer necessidade de provar o que li, onde estudei ou quantas horas da minha vida já perdi mergulhada em assuntos que não eram exatamente da minha área.
Incomodou pelo lugar em que ela me colocou.
O lugar de quem ainda não sabe.
É curioso como fazemos isso nas discussões políticas. Quando alguém concorda conosco, é lúcido. Quando discorda, está desinformado. Se insiste na discordância, precisa estudar. Se estudou e continua discordando, provavelmente estudou as fontes erradas.
É um sistema bastante eficiente. Nele, ninguém precisa correr o risco de estar equivocado.
A conversa continuou.
Vieram documentários, pesquisadores, engenheiros, químicos, historiadores, números, interpretações sobre a Segunda Guerra, Holocausto, sionismo, Palestina e um acordo de 1933 que, em poucos comentários, atravessou quase um século para chegar até Gaza.
E percebi uma coisa que talvez seja mais importante do que a discussão que iniciou tudo:
nós desaprendemos a dizer “eu não sei”.
A internet nos deu acesso a uma quantidade de informação que nenhuma geração antes da nossa teve. Mas acesso à informação não nos transformou automaticamente em pessoas mais bem informadas.
Talvez tenha acontecido justamente o contrário.
Hoje encontramos evidência para praticamente qualquer coisa que já desejávamos acreditar. Digite a pergunta certa e haverá um vídeo... Continue procurando e encontrará um especialista. Procure um pouco mais e encontrará alguém com doutorado.
Mais alguns minutos e aparecerá um documento, uma entrevista, um gráfico e uma comunidade inteira dizendo: “Está vendo? Nós sempre soubemos.”
E pronto. Nasceu uma verdade.
O problema é que fonte não é sinônimo de evidência. Evidência não é sinônimo de prova. E formação acadêmica não transforma automaticamente uma interpretação em fato.
Isso vale para quem está à direita... para quem está à esquerda, para quem defende Israel e para quem defende a Palestina... E, para meu desconforto, vale também para mim!
Porque existe uma tentação muito humana de sermos extremamente rigorosos com a evidência do adversário e surpreendentemente generosos com aquilo que confirma nossas próprias convicções... Foi aí que a conversa deixou de ser sobre Gaza.
O homem que discutia comigo escreveu uma frase que ficou na minha cabeça: a história não se repete, ela rima, oi? Bonita!
E há alguma verdade nela... Pois é, a história realmente rima. O poder muda de roupa, troca de bandeira, aprende novas palavras. Povos perseguidos podem construir Estados poderosos. Vítimas podem produzir novas vítimas. Democracias podem cometer atrocidades. Governos podem chamar violência de defesa, ocupação de segurança e morte de dano colateral.
Mas há um perigo nessa ideia...Quando começamos a procurar rimas demais, podemos começar a enxergar versos que nunca foram escritos.
Correlação vira causalidade? Coincidência vira conspiração.? Pergunta vira evidência? E desconfiança passa a ser tratada como inteligência... hahaha... Talvez o pensamento crítico não seja desconfiar de tudo.
Isso é fácil. Difícil é desconfiar também daquilo em que queremos desesperadamente acreditar.
Eu continuo olhando para Gaza e vendo uma tragédia humana que não precisa de nenhuma teoria sobre 1933 ou 1945 para me indignar... Há crianças mortas, famílias deslocadas, fome, reféns, medo! Medo constante.. E há poder militar, interesses geopolíticos, terrorismo, religião, território, história e uma quantidade obscena de sofrimento humano soterrada debaixo das palavras que cada lado escolheu para justificar a si próprio.
Nada disso exige que eu negue o sofrimento judeu para reconhecer o sofrimento palestino... Essa talvez seja uma das coisas mais perigosas que fizemos com a política contemporânea: transformamos a dor em uma competição! Como se reconhecer uma vítima necessariamente absolvesse ou condenasse outra... se a humanidade precisasse escolher a qual cadáver oferecer compaixão!
No final, eu e aquele homem não chegamos à mesma conclusão. Ainda bem!
Uma boa conversa não precisa produzir concordância. Mas aconteceu algo que considero mais raro: depois de algum atrito, começamos a discutir não apenas no que acreditávamos, mas por que acreditávamos.
E essa é uma pergunta muito mais desconfortável... Porque questionar a verdade do outro é fácil o difícil é colocar a nossa própria verdade sobre a mesa, retirar dela as bandeiras, as paixões, os algoritmos, os autores que admiramos e as pessoas que queremos derrotar...
e perguntar:
Se essa informação dissesse exatamente o contrário daquilo em que acredito, eu exigiria dela o mesmo nível de prova? Se a resposta for não, talvez ainda não estejamos procurando a verdade... Talvez estejamos procurando apenas argumentos. E hoje em dia, a internet entrega isso aos milhares.
Por uma única causa... A verdade dá muito mais trabalho! Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 07/08/2026
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