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A intimidade que você não soube guardar...
Eu não me incomodei com uma fotografia. Eu me incomodei com a possibilidade de estar dentro dela sem saber.
Por alguns segundos, reconheci naquela cena fragmentos de uma intimidade que eu julgava nossa. A posição do corpo, os olhos cobertos, a camisa, a manta próxima, o gesto, a composição. Não sei quem era aquela mulher. Não posso afirmar que era eu. Talvez não fosse. Talvez nem houvesse, para você, qualquer semelhança.
Mas havia para mim. E bastou.
Bastou para que meu corpo se lembrasse antes de minha razão... Bastou para que eu sentisse aquele frio desagradável de quem procura, dentro de uma imagem alheia, algum sinal do próprio corpo... Bastou para que eu me perguntasse se algum momento vivido em confiança poderia ter sido transformado em registro, arquivo, brincadeira ou lembrança compartilhável.
O medo não pede licença para chegar. Ele não organiza provas, não consulta datas e não espera que a pessoa encontre palavras elegantes. Ele só reconhece um perigo antigo e acende todas as luzes ao mesmo tempo.
Eu tentei explicar isso. Disse que não estava acusando... Só expressei a minha verdade de que aquela fotografia havia me causado uma sensação real de incomodo!
Era só isso. Mas alguns homens não sabem acolher uma pergunta sem tratá-la como afronta. Não sabem ouvir o desconforto de uma mulher sem transformar a conversa numa disputa de poder. Quando são confrontados com o impacto de suas atitudes, correm para o arquivo morto da relação. Reviram histórias antigas, recuperam erros já discutidos, contabilizam intimidades, favores, encontros, fantasias e confissões.
Fazem um balanço. Como se a confiança fosse uma planilha. Como se seis encontros dessem direito permanente sobre o corpo, a memória e os limites de alguém. Como se uma mulher que já desejou muito não pudesse, em outro momento, sentir medo. Como se liberdade sexual fosse renúncia ao consentimento.
Eu não sou uma mulher ingênua. Não preciso que ninguém me ensine sobre sexo, desejo, casualidade ou fantasia. Eu sei o que fiz... o que permiti... o que pedi... o que ofereci... e me entreguei porque quis! Eu o desejei porque havia admiração. Havia algo em você que me puxava... Não era apenas seu corpo... Não era apenas o sexo. Era o homem que eu acreditava encontrar quando o mundo ficava do lado de fora e restávamos nós dois, protegidos por quatro paredes e por um pacto que talvez só existisse inteiro dentro de mim.
Para mim, erotismo nunca foi exposição vazia! Erotismo tem silêncio, atmosfera, inteligência! Além da delicadeza de saber até onde se pode ir... Tem presença, intenção, tem o olhar de quem percebe o outro, não apenas o utiliza como peça de uma cena...
O obsceno não está necessariamente na nudez. Às vezes, está na ausência de cuidado.
Há corpos completamente nus que continuam protegidos. E há pessoas vestidas que já foram despidas pela falta de respeito... Eu escrevi sobre nós. Dei palavras ao que vivi. Transformei desejo em narrativa porque, para mim, aquilo merecia linguagem. Fiz de alguns encontros matéria de literatura. Não para exibir você como troféu, mas porque certas experiências pedem uma forma de permanecer sem apodrecer.
Eu cheguei a escrever um livro. Um livro, cacete!!!
Talvez esse tenha sido meu excesso: ter dado profundidade literária a uma relação que o outro só conseguia sustentar como brincadeira. Ter encontrado significado onde talvez existisse apenas disponibilidade. Ter acreditado que uma pessoa capaz de acessar meu corpo saberia também respeitar os lugares invisíveis que o cercavam.
Não me arrependo de ter sentido... Arrependo-me apenas de ter esperado maturidade de quem, diante da minha vulnerabilidade, preferiu vencer uma discussão.
Você poderia ter me tranquilizado. Preferiu me chamar de moralista. Poderia ter compreendido que meu medo não era uma sentença contra você. Preferiu dizer que eu carregava ressentimentos. Poderia ter separado o passado do que estava acontecendo naquele momento. Preferiu recolher antigas situações e lançá-las sobre mim como pedras, numa tentativa desesperada de provar que eu não tinha o direito de me sentir ferida.
Mas eu tinha... Ainda tenho. Não porque eu seja santa. Nunca fui e nunca reivindiquei esse lugar. Não porque você seja um monstro. Também não preciso colocá-lo nesse papel.
Tenho esse direito porque meu corpo é meu. Minha história é minha. Meus limites continuam existindo mesmo depois do desejo, mesmo depois do prazer, mesmo depois de tudo o que permiti acontecer.
Consentimento não é um contrato vitalício... Confiança não é um cheque em branco... Intimidade não é propriedade adquirida... Uma mulher pode ter se ajoelhado por desejo e ainda assim permanecer de pé diante do desrespeito.
Pode ter oferecido o corpo e preservar o direito de escolher o destino de cada lembrança. Pode ter escrito as fantasias mais intensas e ainda dizer “isso não”. Pode ter sido livre, ousada, despudorada e inteira, sem aceitar que alguém use essa liberdade para invalidar seus medos.
O que encerrou nossa história não foi uma fotografia. Foi a forma como você reagiu quando eu disse que ela me machucou.
Ali, compreendi que o homem que eu havia admirado existia melhor dentro dos meus textos do que diante de mim. Nas páginas, ele tinha profundidade, inteligência, mistério e presença. Na conversa real, encontrei um homem empenhado em proteger o próprio ego, mesmo que para isso precisasse diminuir a mulher que um dia confiou nele.
Talvez você nunca entenda... E eu já não preciso que entenda.
Passei tempo demais tentando explicar a minha dor para alguém mais interessado em provar que ela era injusta. Algumas conversas não fracassam por falta de palavras. Fracassam porque um dos lados não pretende escutar.
Por isso, não escrevo esta carta para convencê-lo.
Escrevo para devolver a mim mesma a voz que quase perdi tentando falar com você. O que vivemos teve valor. Eu não apagarei isso para facilitar o fim. Houve prazer. Houve desejo. Houve verdade da minha parte. Guardo o que foi bonito sem transformar beleza antiga em obrigação presente.
Mas não volto... Não para o seu corpo... Não para a sua cama... Não para as fantasias que um dia me fizeram escrever... E, principalmente, não volto ao lugar em que preciso justificar por que alguma coisa me feriu.
O ciclo termina aqui. Não com ódio. Com lucidez.
A mulher que um dia sentiu prazer em ser sua finalmente se lembrou de que, antes de pertencer a qualquer fantasia, sempre pertenceu a si mesma. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 06/08/2026
Alterado em 06/08/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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