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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Deus, pátria, família e o resto que ninguém publica...

 

“Deus, pátria e família.”

 

A frase vem sempre completa, dita com a firmeza de quem acredita ter encontrado três palavras capazes de organizar o mundo. Deus acima de tudo. A pátria protegida. A família preservada.

 

Tudo muito bonito enquanto permanece no palanque.

 

O problema começa quando a frase desce do discurso e entra dentro de casa.

 

Ali, Deus precisa conviver com o adultério. A pátria precisa conviver com a corrupção. A família precisa administrar segredos, silêncios, acordos particulares e uma quantidade considerável de perdão seletivo.

 

Não estou dizendo que todas as pessoas que repetem essa frase sejam infiéis, corruptas ou hipócritas. Isso seria tão raso quanto acreditar que uma frase religiosa transforma alguém automaticamente em pessoa de caráter.

 

Estou falando do exagero moral. Da necessidade de parecer puro. Da mania de construir uma imagem pública tão correta que já não cabe nenhuma verdade humana dentro dela.

 

Porque o ser humano não é uma frase de campanha.

 

O ser humano é contraditório. Ama e trai. Promete e falha. Reza e mente. Defende a honestidade, mas encontra uma justificativa muito bem elaborada quando o favorecido é ele mesmo. Condena o comportamento alheio com uma severidade que raramente aplica dentro da própria casa.

 

Nas famílias mais antigas, muita coisa sempre foi tratada assim.

 

O homem errava, a mulher suportava. O casamento continuava, porque família era aquilo que permanecia de pé, mesmo quando já estava emocionalmente destruído por dentro. A fé entrava como consolo, mas também como obrigação. Era preciso perdoar. Era preciso preservar o nome. Era preciso evitar a vergonha. Era preciso manter a fotografia da sala intacta, ainda que ninguém naquela fotografia estivesse realmente feliz.

 

Muitas mulheres aprenderam que dignidade era aguentar.

 

Muitos homens aprenderam que autoridade era ser perdoado.

 

E muitos filhos cresceram acreditando que silêncio era o mesmo que respeito.

 

Talvez por isso o discurso de “Deus, pátria e família” encontre tanto espaço entre pessoas mais antigas. Ele conversa com uma estrutura que elas conhecem. Uma família que não se desfaz, mesmo quando há traição. Uma mulher que permanece, mesmo quando é ferida. Um homem público que erra, mas continua protegido pelos seus. Uma fé que não questiona, apenas ajuda a suportar.

 

Só que suportar não é necessariamente acreditar.

 

Às vezes, é apenas não ter para onde ir.

 

A esquerda, em parte, tentou colocar outra lente sobre isso. Passou a falar do ser humano como ele é, incompleto, imperfeito, atravessado por desejos, egoísmo, necessidade, medo e vontade de poder. Nem todo desvio nasce da pobreza. Nem toda maldade vem de um trauma. Há quem faça o que faz porque pode. Porque quer. Porque se acostumou a não ser responsabilizado.

 

Essa leitura incomoda porque retira o verniz.

 

Ela não promete uma família perfeita. Fala de famílias possíveis. Não exige que toda relação dure para sempre. Pergunta se ela ainda é digna para quem vive dentro dela. Não transforma casamento em certificado de caráter. Não mede a honestidade de alguém pela frequência com que cita Deus.

 

Mas também seria ingenuidade imaginar que a esquerda está livre de hipocrisia, corrupção, traição ou abuso de poder. Não está.

 

O ser humano não muda de estrutura moral quando troca a cor da camisa.

 

A diferença está no discurso.

 

Quem se apresenta como imperfeito pode ser cobrado por seus atos. Quem se apresenta como escolhido por Deus costuma tentar transformar qualquer crítica em perseguição.

 

E talvez seja esse o ponto que mais me incomoda.

 

Não é a existência da fé. É o uso da fé como proteção moral.

 

Não é a defesa da família. É a família usada como escudo para evitar explicações.

 

Não é o amor à pátria. É a pátria invocada sempre que alguém precisa esconder seus próprios interesses atrás de uma bandeira.

 

Deus, pátria e família são palavras fortes demais para servirem de esconderijo.

 

Deus não deveria ser chamado para justificar silêncio. Pátria não deveria ser confundida com grupo político. Família não deveria ser usada como prova automática de integridade.

 

Uma família unida pode ser amor.

 

Pode ser maturidade.

 

Pode ser perdão verdadeiro.

 

Mas também pode ser conveniência, medo, dependência, cumplicidade ou gestão de imagem.

 

Quem vê de fora não sabe.

 

Por isso, talvez devêssemos parar de julgar as famílias pelo que elas exibem e começar a julgar os agentes públicos pelo que eles fazem.

 

A vida privada pertence ao casal, desde que nela não exista violência ou crime. Já o dinheiro público, os contratos, as decisões políticas e o uso do poder pertencem à sociedade.

 

No fim, a pergunta nunca deveria ser quantas vezes alguém diz “Deus, pátria e família”.

 

A pergunta é outra: O que essa pessoa faz quando ninguém está olhando?

 

E, principalmente, o que ela faz com o poder quando acredita que Deus, a pátria e a família já lhe deram absolvição antecipada?

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/08/2026
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