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SOBREVIVENTE
Hoje o mundo não se esvazia de uma vez... Ele vai se retirando aos poucos.
Num silêncio que demora a ser percebido... Numa conversa que antes tinha palavras e agora responde com emoji...
Num homem que some por dias, reaparece com um coração, uma chama, um “saudade” mal escrito e age como se ausência não deixasse rastro.
São os amores de agora.
Muito desejo, pouca coragem. Muita conexão inventada, pouca presença...
Gente que olha, acompanha, reage, pensa, talvez até queira… mas não chega.
E quando chega, quase sempre vem pela metade.
Quer a conversa quando está sozinho. Quer a mulher interessante quando a vida parece vazia...
Quer a intensidade, mas não quer o peso de conhecer quem existe por trás dela.
Então some.
Depois volta.
Como se o tempo tivesse ficado parado esperando sua reaparição. Como se um emoji tivesse poder para costurar o que o silêncio rasgou.
Já não tenho paciência para isso.
Não quero mais interpretar ausência como mistério, desinteresse como medo, covardia como confusão emocional.
Quem quer estar, encontra uma forma.
Quem não quer, inventa uma linguagem feita de sumiços, respostas curtas e sinais suficientes apenas para não ser esquecido.
O mais cansativo é que eu ainda sinto.
Ainda admiro... Ainda reconheço uma energia diferente. Ainda me pego pensando em alguém que talvez nunca tenha pensado em permanecer.
Mas hoje eu sei: sentir vínculo não significa que exista relação.
Às vezes, existe apenas uma mulher inteira imaginando profundidade onde o outro ofereceu curiosidade.
A ausência também mudou minha família.
Ou talvez apenas tenha retirado o pano que cobria o que sempre esteve ali.
Depois de algumas perdas, eu percebi que convivemos durante anos sem realmente nos conhecer. Sabíamos os horários, as manias, os defeitos, as histórias repetidas nos almoços. Mas não sabíamos quem éramos fora daqueles papéis.
A família conhecia a filha, a irmã, a mulher que resolvia, ajudava, opinava, segurava o que precisava ser segurado.
Mas conhecia meus medos?
Sabia o que eu construí profissionalmente? O que pensei em silêncio? O que escrevi? O que abandonei para continuar sendo útil? O quanto eu estava cansada?
Talvez não.
E eu também preciso admitir que talvez nunca tenha conhecido inteiramente algumas pessoas da minha própria casa.
A gente vive junto e, ainda assim, passa pela vida do outro sem fazer as perguntas certas.
Depois que a principal referência vai embora, sobra uma família tentando se reconhecer no escuro. Cada um defendendo a própria dor, a própria versão, a própria falta.
E há os amigos.
Ou aquilo que um dia chamamos de amizade.
Tenho amigos que continuam existindo na memória de uma época em que eu era outra mulher. Quando trabalhávamos juntos, quando havia estrada, rotina, almoço, problema dividido, conversa diária. Pessoas que souberam quem eu fui em determinado momento, mas não acompanharam quem me tornei depois.
Nós ainda dizemos que somos amigos.
Talvez sejamos.
Mas de um passado... De uma versão minha que já não mora aqui.
Porque amizade também precisa de presença. Não presença diária, nem cobrança, nem obrigação. Mas algum interesse real pelo que o outro se tornou.
Há pessoas que guardam carinho por mim, mas não sabem nada da minha vida de hoje.
Não sabem o que estou tentando construir... Não sabem o que perdi. Não sabem o quanto algumas manhãs exigem... Não sabem que escrevi, recomecei, falhei, tentei outra vez!!
E eu também já não sei quem elas são.
Às vezes, a amizade não termina. Apenas fica preservada como uma fotografia antiga: bonita, verdadeira, mas incapaz de mostrar o que veio depois.
Hoje sobreviver não é lutar contra o fim.
É aprender a viver cercada de relações que não terminaram oficialmente, mas já não existem do mesmo jeito.
Amores que aparecem e desaparecem. Famílias que dividem sangue, mas não intimidade... Amigos que conhecem apenas uma mulher que ficou no passado.
E eu, no meio disso tudo, tentando não me perder também.
Já não peço que todos me compreendam.
Não espero que alguém perceba sozinho o tamanho do meu silêncio.
Mas também não aceito qualquer presença só para não me sentir ausente da vida dos outros.
Cansei de gente que entra apenas para confirmar que ainda consegue provocar alguma coisa em mim.
Cansei de sustentar vínculo com quem oferece migalha digital.
Cansei de chamar de amizade a lembrança de uma convivência que não existe mais.
Cansei de imaginar família onde só havia parentesco.
Talvez sobreviver hoje seja isso: parar de ressuscitar relações que já cumpriram seu tempo.
Parar de acreditar que um coração na tela é afeto.
Parar de esperar profundidade de quem só sabe tocar a superfície.
E entender que algumas pessoas não foram embora de repente.
Elas já estavam ausentes havia muito tempo.
Eu apenas demorei a perceber.
Ainda estou aqui.
Mais desconfiada, menos disponível para o raso, um pouco mais sozinha e, estranhamente, mais perto de mim.
Não intacta.
Mas inteira o suficiente para não aceitar desaparecer dentro da ausência de ninguém. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 03/08/2026
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