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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Eu quero profundidade em tudo!

Depois dos 45, eu cansei de conversa que não leva a lugar nenhum.

 

Cansei de responder “como foi seu dia?” para alguém que nem quer saber de verdade. Cansei de gente que parece interessante por cinco minutos e, depois, vira repetição, silêncio, emoji e assunto vazio. Eu já não tenho paciência para esse tipo de presença que ocupa tempo, mas não acrescenta nada.

 

Eu quero profundidade.

 

Quero gente inteligente. Gente que faça perguntas estranhas, absurdas até, mas que me obrigue a pensar. Quero conversar sobre o que ninguém costuma conversar. Sobre medo, poder, perda, desejo, futuro, fracasso, escolha, culpa, coragem. Quero uma conversa que continue dentro da minha cabeça depois que termina.

 

Talvez por isso eu também tenha cansado de procurar relacionamento.

 

Não porque eu não queira viver alguma coisa. Eu ainda quero. Ainda acredito, mesmo desacreditando. Ainda consigo admirar alguém, ainda reconheço uma energia diferente, ainda me interesso. Só que hoje eu percebo muito rápido quando a pessoa quer apenas passar.

 

E eu não tenho mais idade emocional para ser escala de viagem de ninguém.

 

Depois que minha mãe morreu, outra coisa mudou em mim: a opinião dos outros perdeu muito valor.

 

Enquanto ela existia, eu não aceitava crítica de ninguém. A crítica dela já era suficiente, porque vinha da minha maior referência. Ela podia me dizer uma coisa e aquilo me atravessava. Eu podia discordar, brigar, ficar com raiva, mas importava.

 

Agora, sinceramente, as pessoas podem falar o que quiserem.

 

Podem achar que eu sou intensa, difícil, exagerada, complicada, vaidosa, fechada, carente ou independente demais. Nada disso pesa como antes.

 

Porque ninguém calçou meus sapatos. Ninguém sentiu o vazio que ficou dentro da minha casa. Ninguém sabe o que é perder a pessoa que, mesmo sem entender tudo sobre mim, era minha referência de existência.

 

E aí sempre aparece alguém perguntando:

 

“Mas você não conversa com seus amigos?”

 

Converso.

 

Só que meus amigos também têm problemas, trabalho, família, boletos, doenças, cansaços e perdas. Meus amigos vivem a vida deles. E eu não quero transformar amizade em plantão emocional.

 

Também percebi uma coisa sobre mim que talvez nem todo mundo entenda: eu só sei ser amiga de verdade quando existe convivência.

 

Eu preciso do dia a dia.

 

Preciso saber o que aconteceu na terça-feira, ouvir uma reclamação boba, comentar uma notícia, mandar uma foto sem importância, saber que a pessoa está ali. Quando esse cotidiano termina, a relação vai ficando fraca. Não porque eu deixei de gostar. Não porque eu tenha raiva. Mas porque, sem presença, a coisa vai morrendo em silêncio.

 

Eu não sei sustentar intimidade só com lembrança.

 

E é por isso que relacionamento à distância, para mim, quase nunca funciona.

 

Eu não consigo me alimentar de mensagem, promessa, chamada de vídeo e “um dia a gente se vê”. Eu preciso do real. Preciso da pessoa na minha rotina, do gesto, do olhar, da presença, do incômodo, até da falta de paciência.

 

Distância demais transforma tudo em imaginação.

 

E imaginação é perigosa, porque a gente começa a amar uma versão que criou, não a pessoa inteira.

 

Hoje eu não quero alguém que apareça quando está carente, curioso ou entediado. Não quero ser intervalo na vida de ninguém. Não quero servir de companhia enquanto a outra pessoa decide o que realmente quer.

 

Eu quero alguém que fique.

 

Que tenha curiosidade sobre quem eu sou. Que queira saber o que eu faço, o que eu penso, o que eu já construí, o que ainda quero construir. Alguém que não se interesse apenas pela minha aparência, pela minha força ou pela parte de mim que parece fácil.

 

Depois dos 45, a gente já viveu o suficiente para entender que presença vale mais que promessa.

 

E que conversa boa é rara.

 

Amizade boa é rara.

 

Amor bom, então, nem se fala.

 

Talvez por isso eu tenha ficado mais seletiva. Não mais fria. Seletiva.

 

Eu continuo acreditando nas pessoas... Só não acredito mais em qualquer aproximação.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 03/08/2026
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