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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A candidatura saiu do hospital.

 

Eu confesso que fiquei tentando entender a logística.

 

A mulher está há dez dias com enxaqueca. Dez. Não foi uma dor que apareceu na véspera, não foi uma crise repentina no meio da madrugada. Foram dez dias sentindo dor e, justo no dia em que o nome dela seria lançado ao Senado, resolveu procurar atendimento e aparecer internada.

 

Coincidência existe. Mas na política bolsonarista ela costuma vir acompanhada de câmera, legenda emotiva e pedido de oração.

 

Enquanto Bia Kicis anunciava Michelle Bolsonaro como candidata ao Senado, a própria Michelle não estava no evento. Estava no hospital, num vídeo cuidadosamente suficiente para mostrar o leito, os fios, o acesso e aquela imagem de fragilidade que esse grupo sabe usar muito bem.

 

Ninguém sabe exatamente o diagnóstico. Ninguém sabe se a crise realmente impedia qualquer participação, ainda que rápida. E eu não tenho interesse em medir a dor dos outros. Enxaqueca pode ser incapacitante, sim.

 

O que me chama atenção é outra coisa.

 

Se eu estou há dez dias com uma dor forte, procuro um médico antes. Principalmente quando tenho um compromisso político desse tamanho. Não deixo para descobrir o que tenho exatamente no dia em que meu nome será lançado a um cargo importante.

 

Mas ali a ausência funcionou melhor que a presença.

 

Se ela fosse ao evento, teria que falar. Teria que explicar por que quer ser senadora, o que pretende fazer, qual é o projeto, qual é a experiência e por que o Distrito Federal precisaria dela.

 

No hospital, não.

No hospital, basta existir.

A imagem faz o resto.

 

A candidatura deixa de ser uma escolha política e passa a parecer quase um chamado divino. A pessoa não está simplesmente entrando numa eleição. Está “enfrentando uma batalha”. Não faltou ao evento. Foi impedida pelo sofrimento. Não apareceu como candidata. Apareceu como vítima.

 

E bolsonarista gosta disso.

 

Eles vivem numa espécie de novela permanente em que nunca são responsáveis por nada. Estão sempre perseguidos, injustiçados, doentes, traídos, censurados ou sendo atacados por forças ocultas.

 

Quando estão no poder, são enviados por Deus.

 

Quando são cobrados, viram vítimas.

Quando precisam responder, adoecem.

Quando perdem, houve fraude.

 

É um grupo que transformou o coitadismo em estratégia política e a exposição do sofrimento em método de comunicação.

 

A doença pode ser verdadeira. O uso da imagem também.

 

Uma coisa não impede a outra.

 

Aliás, esse é o ponto mais eficiente. Ninguém precisa inventar uma doença. Basta saber transformar a doença em narrativa. Mostrar o suficiente para provocar comoção e esconder o suficiente para ninguém poder perguntar muito.

 

Porque, a partir dali, qualquer crítica vira crueldade.

 

Se você questiona o timing, dizem que você não respeita uma mulher doente.

 

Se pergunta pela candidatura, mandam você orar.

 

Se pergunta pelo projeto político, respondem com boletim médico.

 

A pauta sai do Senado e entra na enfermaria.

 

Pronto. Michelle não precisou comparecer, não precisou se apresentar, não precisou responder nada e, ainda assim, conseguiu ser o centro do evento.

 

É um talento.

 

No bolsonarismo, até a ausência é usada como palanque.

 

E talvez tenha sido melhor assim. Porque, quando falta projeto, experiência e conteúdo, um quarto de hospital bem enquadrado comunica muito mais que qualquer discurso.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 02/08/2026
Alterado em 02/08/2026
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