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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

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Convenção do PL: O homem no palco e o pai no algoritmo

Eu assisti à convenção do Partido Liberal e, por alguns minutos, tive dificuldade de entender quem estava sendo lançado candidato à Presidência da República.

 

Flávio Bolsonaro estava fisicamente no palco. Tinha microfone, discurso, esposa, partido, aplausos e a homologação formal de sua candidatura. Mas toda a cerimônia continuava girando em torno de outro homem.

 

Jair Bolsonaro não podia estar presente nem falar publicamente. Ainda assim, apareceu no telão, recriado por inteligência artificial, pedindo apoio ao filho. Não era uma gravação antiga claramente apresentada como arquivo. Era uma versão digital fabricada para ocupar o espaço deixado por sua ausência. O pai estava impedido de entrar, então o algoritmo entrou por ele.

 

Ali, a convenção deixou de parecer apenas uma reunião partidária e ganhou um ar de Black Mirror produzido pela família Bolsonaro.

 

Flávio estava vivo, presente e oficialmente escolhido. Mesmo assim, precisou dividir o palco com uma cópia artificial do pai. Talvez porque o partido saiba o que ninguém teve coragem de dizer em voz alta: o nome lançado foi o de Flávio, mas o produto político continua sendo Jair.

 

Trocaram o corpo e mantiveram o personagem.

 

O próprio Flávio chorou quando falou do pai, prometeu honrar seu legado e afirmou que havia “sangue de Bolsonaro” naquela candidatura. Pouco se apresentou sobre o que ele faria concretamente com saúde, educação, emprego, infraestrutura, desenvolvimento regional, segurança pública ou relações federativas. A cerimônia ofereceu mais identidade familiar do que programa de governo.

 

Não era uma candidatura dizendo ao país: “Este é o Brasil que pretendemos construir.”

 

Era um filho dizendo: “Eu sou a continuação do meu pai.”

 

Há uma diferença imensa entre as duas coisas.

 

Uma candidatura presidencial deveria nascer de uma leitura do país. Deveria reconhecer a fome, a desigualdade, a violência, o abandono das periferias, as dificuldades da indústria, os desafios ambientais e o abismo histórico entre o Norte e o centro das decisões nacionais.

 

Naquela convenção, porém, o Brasil parecia cenário. O enredo principal era a família.

 

Poucos dias antes, Flávio havia pedido desculpas publicamente a Michelle Bolsonaro, depois de semanas de tensão e acusações dentro do próprio grupo. Michelle aceitou as desculpas e enviou um vídeo à convenção. Não compareceu pessoalmente e, segundo a cobertura do evento, mencionou o candidato apenas uma vez.

 

Pedido de desculpas é coisa séria. Dentro de uma família, pode representar arrependimento, afeto e reconstrução. Mas, quando acontece às vésperas de uma convenção presidencial e termina exibido num telão, ganha outra função. Vira administração de crise. Vira costura eleitoral. Vira reconciliação com iluminação, roteiro e equipe de comunicação.

 

A política brasileira já teve coronelismo, oligarquias e famílias controlando territórios durante gerações. Agora ganhou sua versão tecnológica: a sucessão familiar transmitida em alta definição.

 

O pai aparece em inteligência artificial. A madrasta manda a bênção por vídeo. Os irmãos enviam recados. O filho chora. O partido aplaude. E o público é convidado a confundir drama familiar com projeto nacional.

 

No plano internacional, o roteiro ficou ainda mais revelador.

 

Javier Milei, presidente da Argentina, esteve pessoalmente na convenção e atacou o governo brasileiro. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, enviou uma mensagem de apoio e chamou Flávio de “campeão do Brasil”.

 

A presença deles não foi simples cortesia diplomática. Era uma mensagem geopolítica.

 

Flávio tentou se apresentar como parte de uma rede internacional de direita, ligada ao ultraliberalismo econômico, ao conservadorismo religioso, ao discurso de guerra cultural e à ideia de que a esquerda latino-americana deve ser combatida como uma ameaça continental.

 

É uma estratégia conhecida: quando falta força interna suficiente, importa-se prestígio externo. O candidato aparece cercado por líderes estrangeiros para transmitir a sensação de que pertence a algo maior, mais poderoso e inevitável.

 

O curioso é que esse mesmo campo político fala o tempo todo em soberania nacional.

 

Passa anos dizendo que estrangeiro não deve interferir no Brasil. Depois leva um presidente estrangeiro a uma convenção partidária para atacar o governo brasileiro diante de uma plateia em êxtase.

 

A soberania, pelo visto, depende de quem está segurando o microfone.

 

Se for adversário, é interferência.

 

Se for aliado, é apoio internacional.

 

Netanyahu no telão, Milei no palco, Jair no algoritmo, Michelle no vídeo. Havia tanta gente de fora e tanta imagem fabricada que, em alguns momentos, parecia faltar justamente o brasileiro comum.

 

A mulher que espera atendimento no posto de saúde.

 

O trabalhador que passa quatro horas dentro de um ônibus.

 

O pequeno empresário que não consegue crédito.

 

A comunidade amazônica que vive cercada de riqueza mineral, hídrica e energética, mas continua sem saneamento.

 

O jovem que terminou a escola e não encontra trabalho.

 

O agricultor que produz e não tem estrada.

 

Essas pessoas não apareceram porque não fazem parte da mitologia da família. Elas exigiriam propostas, números, prioridades, compromissos e explicações. E isso dá mais trabalho do que colocar um ex-presidente digital no telão.

 

Flávio Bolsonaro foi oficializado candidato. Isso é um fato político e democrático. Ele terá o direito de apresentar suas ideias, disputar votos e ser julgado nas urnas.

 

O que aquela convenção mostrou, porém, foi a dificuldade de separar sua candidatura da figura do pai.

 

Flávio entrou no palco com o próprio corpo.

 

Jair entrou com o mito, o sobrenome, a voz fabricada e o peso sobre todos os discursos.

 

Um foi homologado.

 

O outro foi materializado.

 

Talvez por isso a inteligência artificial tenha sido a parte mais sincera daquela cerimônia. Ela revelou, sem perceber, aquilo que o partido tentava disfarçar: Flávio ainda não foi apresentado ao país como uma liderança autônoma. Foi apresentado como uma extensão tecnicamente atualizada de Jair Bolsonaro.

 

O PL não lançou exatamente um novo candidato.

 

Tentou imprimir uma continuação.

 

E democracia nenhuma deve tratar família como destino nacional. Presidência da República não é herança, sobrenome não é programa de governo e o Brasil não pode ser reduzido a um álbum de família exibido num telão.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 25/07/2026
Alterado em 27/07/2026
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