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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O desejo que ele não conseguia assumir sóbrio... 

Ele já tinha bebido mais do que devia quando começou a falar.

 

Não parecia exatamente bêbado. Ainda conseguia segurar o copo, escolher as palavras e sorrir nos momentos certos. Mas havia naquele sorriso uma espécie de cansaço, como se tivesse passado tempo demais fingindo que não procurava nada.

 

A festa estava barulhenta. Gente se abraçando, dançando, falando perto demais do ouvido dos outros. Éramos algumas mulheres ao redor dele, quatro ou cinco, talvez. Ele parecia ter encontrado naquele pequeno círculo uma oportunidade de dizer coisas que provavelmente não diria sóbrio.

 

— Faz muito tempo que eu procuro alguém — confessou.

 

Depois riu, talvez para diminuir o peso da frase.

 

— Mas só encontro pessoas pela metade.

 

A expressão pareceu estranha.

 

Pessoas pela metade.

 

Ele bebeu mais um gole e continuou.

 

Conhecia mulheres lindas. Mulheres de peito grande, cintura marcada, bunda grande, corpo cheio. Exatamente o tipo de corpo que atraía seu olhar. Mas, quando a intimidade começava, percebia que precisava esconder partes do próprio desejo.

 

Não queria apenas tocar.

 

Também queria ser tocado.

 

Gostava quando exploravam seu corpo inteiro, sem pressa e sem as fronteiras estabelecidas pela velha cartilha de que o homem só pode oferecer prazer, jamais recebê-lo de determinadas maneiras.

 

Enquanto ele falava, cada mulher à sua volta parecia ouvir uma história diferente.

 

Umas riam.

 

Talvez por constrangimento. Talvez porque o riso seja a forma mais rápida de afastar aquilo que não se compreende.

 

Outras davam conselhos. Diziam o que ele deveria fazer, com quem deveria se relacionar, como deveria se comportar ou onde provavelmente estava errando.

 

Havia também quem transformasse aquela confissão numa cena erótica. Quem começasse a desenhar, nas próprias palavras e no próprio corpo, a mulher que poderia satisfazê-lo. Como se ele tivesse aberto uma espécie de vaga e elas, discretamente, começassem a apresentar suas qualificações.

 

Eu não conseguia fazer nenhuma dessas coisas.

 

Como mulher neurodivergente, de sensibilidade ampliada, raramente escuto apenas as palavras. Percebo o intervalo entre elas, a mudança no tom da voz, o riso que chega atrasado, o olhar que foge, a mão que aperta o copo um pouco mais forte.

 

Enquanto algumas ouviam uma preferência sexual, eu observava um ser humano.

 

Não estava preocupada em descobrir por que ele gostava daquilo, como se todo desejo precisasse ser investigado até encontrar uma explicação aceitável. Também não tentava decidir o que aquela preferência dizia sobre sua masculinidade ou sua orientação sexual.

 

Eu via tristeza.

 

Ou melancolia.

 

Talvez frustração.

 

Talvez falta.

 

Era um homem bonito, rico, aparentemente capaz de conquistar qualquer pessoa que desejasse. Alguém que, visto de fora, não parecia conhecer escassez. Provavelmente muitas mulheres naquela festa olhavam para ele e imaginavam uma vida sem recusas, sem solidão, sem desejos adiados.

 

Mas o dinheiro não resolve aquilo que uma pessoa não consegue confessar.

 

A beleza também não.

 

Nem o poder, nem o sobrenome, nem o lugar social.

 

— Elas gostam de mim até eu contar do que eu gosto — disse.

 

Riu novamente, mas dessa vez havia alguma coisa quebrada naquele riso. Uma mistura de melancolia, frustração e vergonha. Talvez o cansaço de precisar explicar o próprio corpo. Talvez o medo de que, ao se mostrar por inteiro, deixasse de ser visto como o homem que todos acreditavam que ele deveria ser.

 

Algumas mulheres se assustavam quando ele falava sobre seus desejos.

 

Outras riam.

 

Havia as que diziam que aquilo não era coisa de homem. As que começavam imediatamente a questionar sua sexualidade. As que transformavam um desejo íntimo em suspeita, diagnóstico ou julgamento.

 

Também havia mulheres que compreendiam. Mulheres que não enxergavam vergonha em usar as mãos, os dedos, a boca ou qualquer outra forma consentida de prazer. Mulheres que sabiam que o corpo masculino também possui lugares sensíveis e que explorá-los não diminui ninguém.

 

Mas, segundo ele, ainda faltava alguma coisa.

 

Talvez atração.

 

Talvez conexão.

 

Talvez aquela combinação exata de corpo, presença e liberdade que ainda não havia encontrado.

 

Uma tinha as curvas que o enlouqueciam, mas tratava seus desejos como perversão.

 

Outra compreendia seus desejos, mas não despertava nele a mesma fome.

 

Uma oferecia o corpo.

 

Outra oferecia compreensão.

 

E ele continuava procurando alguém que trouxesse as duas coisas na mesma pessoa.

 

— Eu não quero ter que escolher — disse, já sem rir. — Não quero uma pessoa para desejar e outra para me entender.

 

Foi então que sua busca começou a ganhar contornos mais claros.

 

Ele gostava de feminilidade. De seios grandes, quadris largos, pernas grossas, bunda volumosa. Gostava de mulheres que ocupavam espaço, que carregavam no corpo uma sensualidade quase excessiva.

 

Mas também desejava alguém que não se assustasse com aquilo que ele queria receber.

 

Alguém que entendesse que o prazer não precisava obedecer aos papéis tradicionais de homem e mulher. Que tocar ou ser tocado, conduzir ou se entregar, penetrar ou ser penetrado não determinava caráter, masculinidade ou orientação sexual.

 

Talvez ele já tivesse amado uma mulher cis que não conseguiu compreender essa parte dele.

 

Talvez tivesse vivido uma relação em que precisou esconder o próprio desejo para não ser julgado.

 

Talvez estivesse completamente apaixonado por uma mulher trans e ainda não soubesse como conciliar esse sentimento com a vida que levava, com a posição social que ocupava ou com as expectativas de uma família tradicional.

 

Talvez não fosse nada disso.

 

Eram apenas possibilidades.

 

A neurodivergência me ensinou a enxergar muitas camadas ao mesmo tempo, mas também me ensinou que compreender não é invadir. Nem toda dor precisa ser decifrada. Algumas precisam apenas encontrar um lugar seguro onde possam aparecer.

 

Talvez por isso seu olhar frequentemente parasse em mulheres trans.

 

Não apenas por uma questão anatômica.

 

Talvez elas representassem, em sua imaginação, uma possibilidade de viver a feminilidade fora das regras rígidas que aprendera sobre sexo, corpo e desejo.

 

É claro que havia fantasia naquela construção.

 

Mulheres trans não constituem uma categoria de disponibilidade sexual. Não existem para realizar desejos que determinados homens não conseguem confessar às mulheres cis. Elas também escolhem, recusam, desejam, conduzem e estabelecem os próprios limites.

 

Mas eu não via um homem simplesmente escolhendo entre mulheres cis e mulheres trans.

 

Via alguém tentando encontrar uma forma de intimidade em que não precisasse amputar uma parte de si.

 

Durante anos, talvez ele tivesse imaginado que procurava apenas uma mulher com determinado corpo. Aos poucos, porém, poderia ter percebido que procurava também um tipo específico de liberdade.

 

Uma mulher que pudesse desejá-lo sem exigir que ele representasse, o tempo inteiro, o papel do homem intocável, dominante e impenetrável.

 

Uma mulher diante da qual ele não precisasse provar masculinidade.

 

Nem riqueza.

 

Nem poder.

 

Nem controle.

 

Então compreendi que o problema talvez não fosse encontrar alguém inteiro.

 

Era conseguir se apresentar inteiro.

 

Enquanto escondesse metade dos próprios desejos, qualquer pessoa lhe pareceria incompleta.

 

O copo já estava quase vazio quando ele disse:

 

— Eu só queria alguém com quem eu não precisasse ter vergonha.

 

E talvez aquela tenha sido a primeira frase realmente sóbria da noite.

 

As outras mulheres ainda tinham opiniões, conselhos, risos e propostas disfarçadas de brincadeira.

 

Eu permaneci em silêncio.

 

Não porque não tivesse nada a dizer.

 

Mas porque, naquele momento, ele não parecia precisar de uma resposta.

 

Precisava apenas que alguém percebesse que, por trás do homem bonito, rico e desejado, havia um ser humano cansado de ser aceito somente pela metade.

 

A festa continuou.

 

A música aumentou, alguém o chamou para dançar e ele voltou para o meio das pessoas como se não tivesse contado nada.

 

Mas deixou sobre a mesa uma verdade que muitos homens carregam em silêncio:

 

às vezes, eles não encontram pessoas pela metade.

 

São eles que chegam aos relacionamentos escondendo metade de si.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 21/07/2026
Alterado em 22/07/2026
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