google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0

... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Na varanda com minha mãe (in memoria)

— Mãe, hoje eu acordei estranha.

Ela não perguntou “estranha como?”. Minha mãe nunca teve essa pressa de arrancar resposta. Apenas puxou a cadeira um pouco mais para perto, ajeitou a barra da roupa sobre os joelhos e continuou olhando o movimento da rua.

Na varanda, o dia parecia normal demais para o que eu estava sentindo.

Tinha gente passando, uma moto fazendo barulho, o vento mexendo nas folhas das plantas que ela insiste em salvar, mesmo quando já parecem mortas. Tudo continuava no lugar.

Menos eu.

— Estranha de um jeito ruim — continuei. — Como se eu tivesse feito alguma coisa que não deveria. Como se tivesse mostrado demais para quem não merecia ver.

Ela me olhou de lado.

— Mostrado o quê?

— Não sei. Talvez uma fotografia. Uma frase. Uma parte de mim.

Minha mãe ficou em silêncio, esperando que eu encontrasse as palavras. Mãe sabe que, às vezes, a gente precisa ouvir a própria voz para entender o que está acontecendo por dentro.

— Acho que falei demais, mãe. Escrevi demais. Mostrei sentimentos para pessoas que talvez não soubessem receber aquilo.

— E o que fizeram?

— Talvez nada.

Ela franziu a testa.

— Então por que você está sofrendo pelo que talvez tenham feito?

Eu respirei fundo.

Era difícil explicar que, às vezes, o que dói não é o julgamento. É a possibilidade dele.

— Porque depois que a gente mostra alguma coisa, não consegue mais controlar a forma como os outros vão olhar. Uma pessoa lê uma verdade e chama de fraqueza. Outra vê uma foto e acha que recebeu um convite. Alguém percebe uma dor e transforma em curiosidade.

Minha mãe balançou a cabeça devagar.

— O problema não é você ter mostrado. O problema é achar que todo mundo sabe enxergar.

Fiquei quieta.

Na tela do computador havia uma imagem de um olho aberto por uma pequena peça de metal. Um olho que parecia não ter o direito de piscar. A lágrima escorria, mas ele continuava aberto, sendo obrigado a ver.

Mostrei a imagem para ela.

— Hoje eu estou me sentindo assim.

Ela se inclinou um pouco.

— Assim como?

— Como se eu não pudesse fechar os olhos. Como se precisasse rever tudo o que escrevi, tudo o que publiquei, todas as conversas. Como se eu tivesse que descobrir onde errei.

— E você errou?

— Não sei.

— Então pare de se condenar antes de saber o crime.

Eu ri sem vontade.

Minha mãe sempre conseguiu dizer coisas duras com uma tranquilidade que impedia a gente de discutir.

— Mas estou com uma sensação de derrota — falei. — Como se nada de bom fosse acontecer. Como se eu tivesse me exposto para as pessoas erradas e agora não pudesse recolher o que é meu.

Ela olhou para a rua outra vez.

— Sensação não é sentença, minha filha.

Foi uma frase simples.

Mas ficou entre nós como essas coisas que parecem pequenas quando são ditas e depois crescem dentro da gente.

— Eu sei, mãe. Mas hoje parece verdade.

— Tudo o que a tristeza diz parece verdade enquanto ela está falando.

O vento bateu mais forte. Uma das plantas caiu para o lado, e ela se levantou para ajeitar o vaso.

— Está vendo isso aqui? — perguntou.

— O quê?

— Essa planta. Ontem você disse que ela estava morrendo.

— E está.

— Não está. Está feia. É diferente.

Sorri.

— E qual é a diferença?

— A gente não joga fora tudo o que está feio num dia ruim.

Ela voltou a se sentar.

Fiquei olhando para aquela planta torta, com duas folhas amareladas e uma insistência quase ofensiva em continuar viva.

— Acho que quero apagar tudo — confessei. — As fotografias, os textos, algumas lembranças. Dá vontade de pegar cada palavra e trazer de volta.

— Palavra não volta.

— Eu sei.

— Ainda bem.

Olhei para ela.

— Ainda bem por quê?

— Porque algumas coisas precisam sair da gente. O erro é acreditar que, depois que saem, continuam sob nosso comando.

Minha mãe pegou a xícara de café, já frio, e tomou um gole mesmo assim.

— Quem escreve entrega — disse. — Quem lê faz o que consegue com aquilo. Uns entendem, outros deformam. Mas você não pode passar a vida diminuindo sua verdade para caber na compreensão dos outros.

— E se eu tiver mostrado para quem não deveria?

— Então aprenda a escolher melhor da próxima vez. Mas não transforme sua coragem em vergonha.

Aquela frase me atingiu.

Talvez fosse exatamente isso que eu estivesse fazendo.

Chamando de erro o que, algumas horas antes, havia sido apenas coragem.

— Eu fico pensando que talvez tenham me achado fraca.

— E você é?

— Às vezes.

— Todo mundo é.

— Talvez tenham pensado que eu queria atenção.

— E queria?

— Talvez quisesse ser compreendida.

— Isso não é a mesma coisa.

Ficamos alguns minutos sem falar.

Na rua, uma mulher passou segurando a mão de uma criança. Um cachorro latiu do outro lado. O mundo continuava acontecendo com aquela indiferença que, em certos dias, chega a ser um alívio.

— Mãe, você nunca teve vontade de se esconder depois de contar alguma coisa?

Ela sorriu.

— Muitas vezes.

— E o que fazia?

— Esperava passar.

— Só isso?

— Você acha pouco?

Pensei um pouco.

— Talvez não.

— Tem coisa que não precisa de decisão. Precisa de tempo. Você não apaga sua vida no mesmo dia em que está com medo dela.

Olhei novamente para o olho na tela.

— Parece que ele está sendo obrigado a continuar aberto.

Minha mãe acompanhou meu olhar.

— Então feche o seu.

— Como assim?

— Desliga isso. Vai tomar banho. Come alguma coisa. Dorme. Amanhã você olha de novo.

— Parece simples quando você fala.

— Porque é simples. Não quer dizer que seja fácil.

Fechei o computador.

A varanda ficou mais silenciosa sem a luz da tela.

— Sabe o que é pior? — falei. — Eu queria acreditar que alguma coisa boa ainda vai acontecer. Mas hoje não consigo.

Minha mãe segurou minha mão.

— Você não precisa acreditar hoje.

— Não?

— Não. Hoje você só precisa não decidir que nunca vai acontecer.

A lágrima veio antes que eu pudesse evitar.

Não era bonita. Não era literária. Não tinha legenda.

Era só uma lágrima.

Minha mãe não enxugou. Também não disse para eu parar de chorar.

Ficou ali.

Talvez seja isso que algumas pessoas não entendem sobre permanecer. Não é ter a frase certa. Não é resolver. É não sair correndo quando o outro deixa de ser interessante e começa a ser humano.

— Mãe...

— Oi.

— E se eu realmente tiver me mostrado demais?

Ela apertou minha mão.

— Então agora você descansa. Depois escolhe melhor para quem abre a porta. Mas não feche a casa inteira por causa de quem entrou sem saber se comportar.

Fiquei olhando o fim da tarde.

A luz já mudava nas paredes. A planta que parecia morta continuava torta, mas de pé.

Naquele momento, entendi que talvez eu não estivesse derrotada.

Talvez estivesse apenas cansada de me vigiar.

Cansada de imaginar o que pensaram.

Cansada de tentar corrigir interpretações que nunca estiveram sob meu controle.

Encostei a cabeça no ombro da minha mãe.

— Amanhã passa?

Ela beijou meu cabelo.

— Talvez não passe tudo.

Fez uma pausa.

— Mas você vai estar um pouco maior do que isso.

E nós permanecemos ali, na varanda, até que escurecesse.

Sem apagar nada.

Sem decidir nada.

Apenas deixando o dia terminar antes de concluir que a vida também tinha terminado.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/07/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras