google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0

... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Os que chegam pulando capítulos

 

Há uma fase da vida em que mulheres solteiras, livres e maduras passam a ser vistas pela juventude com uma espécie de curiosidade misturada com desejo.

 

Homens de vinte e poucos, outros já entrando nos trinta, aparecem pelas redes sociais, pelos aplicativos, por uma curtida antiga ou por algum comentário que, aparentemente, despertou interesse.

 

No início, parecem gentis.

“Bom dia, deusa...” “Que sorriso bonito...” “Você dormiu bem?” “Já tomou café?”

Duas ou três frases comuns, quase inocentes. O suficiente para dar a impressão de que uma conversa está começando.

 

Mas a conversa raramente começa de verdade.

 

Sem qualquer transição, surge uma pergunta íntima. Uma preferência sexual. Uma insinuação. Às vezes, um vídeo de um casal na cama, acompanhado de corações e da frase: “Eu e você”. E aquela mulher olha para a tela com certo estranhamento e pensa: Em que momento chegamos a esse assunto?

 

O homem ainda não sabe onde ela mora, do que gosta, o que faz da vida ou quais histórias carrega. Não conhece sequer sua voz, mas já parece conhecer o lugar que deseja ocupar em sua cama.

 

Talvez enxergue naquela mulher exatamente aquilo que deseja enxergar.

Uma mulher madura, livre, segura e solteira.

 

E, na imaginação de alguns, tudo isso parece significar disponibilidade. Como se uma mulher que já atravessou os vinte e os trinta deixasse de exigir contexto. Como se a atenção de um homem mais jovem fosse uma espécie de presente. Como se ela devesse se sentir agradecida apenas por ainda despertar desejo.

 

Mas despertar desejo nunca foi o problema.

O problema é a pobreza da aproximação.

Não se trata de pudor.

 

Mulheres maduras podem gostar de sexo, falar de prazer, conhecer o próprio corpo e viver seus desejos sem culpa. Aliás, talvez saibam viver tudo isso com muito mais tranquilidade do que antes. Mas saber o que se deseja também significa saber exatamente o que não se aceita. E sexo sem conversa, sem inteligência e sem um mínimo de intimidade pode ser qualquer coisa, menos interessante.

 

Ser jovem, estar na faixa dos vinte ou trinta anos e postar uma fotografia no espelho da academia não transforma ninguém em um deus de interesse divino. Uma mulher madura já não se encanta apenas com um corpo sarado, cabelo tratado ou barba bem-feita. Não... 

 

Precisa ter molho.

 

E molho tem a ver com inteligência, presença, conversa, humor e alguma atração que não se explica. Nem que seja apenas aquele padrão particular de gosto que cada mulher possui e que faz alguém chamar sua atenção sem nenhum esforço aparente.

 

Mas a pressa masculina também diz muito.

 

Alguns homens não querem conhecer uma mulher madura. Querem apenas experimentar uma ou ainda desejam a fantasia da mulher mais velha: experiente, segura, disponível e, principalmente, descomplicada... Aquela mulher que não cobraria presença, não faria perguntas demais e aceitaria encontros rápidos, mensagens rasas e afetos provisórios.

 

Só que mulheres maduras não querem ser experiência de ninguém por quem não se sintam minimamente atraídas.

Não desejam ser professoras, fetiches ou personagens de uma aventura que alguém imaginou antes mesmo de saber quem elas são.

 

Algumas dessas aproximações vêm acompanhadas de muita intensidade.

 

Há elogios, declarações, ciúmes e desejos precoces. Uma intimidade construída depressa demais e apresentada como se fosse profundidade... Por algum tempo, isso pode até confundir, depois, percebe-se que intensidade também pode ser apenas ansiedade bem apresentada...

 

Há homens que gostam da mulher livre, mas se incomodam com a liberdade dela.

 

Admiram sua inteligência, desde que ela não questione suas contradições, é claro! Desejam sua segurança, desde que essa segurança esteja voltada exclusivamente para eles, com certeza! Não querem exatamente conhecê-la.

Querem sentir que a possuem, o poder do pinto falando mais alto!

 

E é assim que mulheres maduras começam a compreender melhor esses acessos.

 

Nem todo homem que se aproxima de uma mulher está verdadeiramente interessado nela. Alguns estão interessados apenas naquilo que imaginaram sobre ela... Nas redes sociais, uma fotografia vira autorização. Uma frase vira convite. Um decote vira disponibilidade. Uma mulher que fala sobre desejo passa a ser tratada como se estivesse oferecendo acesso.

 

Existem até aqueles que ampliam a fotografia e dão opinião sobre o corpo alheio: “Acho que, com silicone, você ficaria mais gostosa.” "Você já fez lipo né"... hahaha Pagando, que mal tem? Porquê pagar tudo isso... Bem, só se for herdeiro ou fazendo uma poupança de 24 meses... 

 

Agora, acesso já é outra coisa... Afinal, liberdade nunca foi convite e maturidade nunca foi facilidade.

 

O questionamento continua rondando: por que alguns homens chegam dessa forma?

A resposta, quase sempre, está na própria abordagem... Quem pula a conversa costuma estar interessado apenas no destino. Quem não demonstra curiosidade alguma sobre uma mulher dificilmente deseja conhecê-la.

E quem transforma intimidade em assunto antes de construir confiança revela, sem perceber, a pouca capacidade que possui de sustentar alguma relação para além do corpo.

 

Isso não significa que mulheres maduras estejam fechadas para homens mais jovens.

Jamais... Elas estão fechadas para a superficialidade, para a falta de inteligência, para a compreesão de flerte e repertorio de filosofia de vida mesmo... Indo de Niestche à sr. Pereira do Bar da esquina!

 

Essa maturidade não recusa juventude... Elas recusam imaturidade! Porque uma mulher madura ainda pode gostar de surpresa, desejo, aventura e intensidade... Mas já não confunde atenção com interesse e nem elogio com admiração e muito menos insistência com sentimento.

 

Ela sabe que ser desejada é fácil.

Difícil é ser enxergada.

 

E, quando alguém chega interessado apenas no corpo, sem qualquer curiosidade pela mulher que o habita, ela não discute, não ensina e não tenta convencer.

 

Apenas fecha o ciclo.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/07/2026
Alterado em 20/07/2026


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras