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Eu nunca estive indisponível...Eu sempre fui assim.
Com amigo, conhecido, parente, colega, vizinho, qualquer pessoa. Eu me colocava à disposição antes mesmo que alguém pedisse. Bastava surgir uma dificuldade, uma necessidade, um silêncio estranho, e eu já estava tentando ajudar, acompanhar, resolver, facilitar.
Durante muito tempo, achei que isso dizia alguma coisa bonita sobre mim.
Talvez dissesse também.
Mas não dizia só isso.
Hoje eu percebo que, muitas vezes, eu me colocava à disposição porque precisava sair do lugar onde estava. Precisava ocupar o tempo. Precisava ter uma função. Precisava sentir que havia algum motivo para levantar, sair, fazer alguma coisa.
Talvez ajudar os outros tenha sido, por muito tempo, uma maneira de não olhar para o meu próprio vazio.
Eu fui presença em lugares onde ninguém tinha me chamado. Fui companhia sem que tivessem pedido companhia. Fui solução para problemas que nem eram meus.
E, fazendo isso tantas vezes, ensinei as pessoas a acreditarem que eu estava sempre disponível.
Mas eu nunca estive. Eu apenas me acostumei a me abandonar primeiro... Hoje, prefiro o meu canto.
Prefiro não sair por futilidade. Prefiro ficar em casa, no meu silêncio, ouvir minhas músicas, assistir às minhas séries, não ter que me explicar, não ter que cumprir presença, não ter que ir só porque alguém acha que eu deveria ir.
E isso não é tristeza. Não é solidão. Não é amargura. É paz. Dizer não é libertador.
Mas existe uma liberdade ainda maior: dizer não e não se importar com o que os outros vão achar.
Porque sempre vão achar alguma coisa.
Vão dizer que eu mudei, que estou distante, que antes eu era diferente, que eu sempre fui aquela pessoa que ia, que fazia, que resolvia, que estava ali... Mas eu não quero ser lembrada assim.
Não quero que digam: “Ela sempre esteve disponível.” Porque eu não estive. Eu só parecia estar... Nas vezes em que mais precisei de ajuda, ninguém percebeu.
O tal sensor que identifica quando alguém não está bem parecia quebrado quando se tratava de mim. Ou talvez nunca tenha existido.
Sempre fui eu que precisei dizer. Eu que precisei avisar. Eu que precisei explicar que estava cansada, triste, perdida, doente ou atravessando alguma coisa.
Enquanto eu percebia o silêncio dos outros, quase ninguém percebia o meu.
Enquanto eu perguntava se estava tudo bem, eu só era perguntada depois de dar sinais claros demais.
E isso também cansa... Cansa ter que pedir para ser vista. Cansa ter que explicar a própria dor... Cansa ser lembrada pela disponibilidade, mas esquecida na necessidade.
Hoje, eu não quero mais ser a pessoa que se antecipa a tudo.
Não quero mais adivinhar necessidades. Não quero mais me deslocar sempre. Não quero mais sair da minha paz para atender à conveniência de ninguém.
Isso serve para tudo. Para amizade. Para família. Para trabalho. Para amor. Para qualquer relação em que uma pessoa se acostuma a receber e a outra se acostuma a oferecer.
Eu continuo sendo alguém que ajuda. Continuo sendo alguém que se importa. Mas não estou mais disponível o tempo inteiro.
E, principalmente, não me sinto mais obrigada a parecer disponível para continuar sendo considerada uma boa pessoa.
Hoje, escolho o meu canto. Escolho o silêncio. Escolho a música. Escolho ficar. E, pela primeira vez, não tenho medo do que vão pensar sobre isso.
Porque dizer não me libertou. Mas parar de me explicar me libertou ainda mais... Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 18/07/2026
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