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O amor não devia precisar de alarme...Eu escrevi que, às vezes, a gente não consegue arrancar a dor de quem ama. Então fica. Escuta. Acompanha. Segura a mão, ainda que de longe.
Era só isso.
Não havia doença escondida, tragédia anunciada nem pedido de socorro disfarçado. Havia luto. A ausência recente da nossa mãe entrando pelos quartos, sentando-se à mesa, mudando de lugar as coisas dentro de nós.
Mas família tem dessas delicadezas tardias: não percebe o silêncio de quem está perto, mas se assusta quando ele aparece escrito numa postagem.
Alguém leu, interpretou, telefonou para outro alguém. A notícia correu pela família com a eficiência que o afeto nunca teve. De repente, surgiu preocupação. Perguntas. Ligações. Aquele cuidado recém-inaugurado, tão pontual que quase vinha acompanhado de protocolo e número de atendimento.
E ele ligou.
Talvez preocupado de verdade. Talvez por culpa. Talvez porque ficou sabendo e achou que precisava demonstrar alguma coisa. Não sei. Há sentimentos que chegam misturados demais para receber um nome bonito.
Mas uma ligação não é presença.
Presença é perguntar antes do alarme. É saber como o outro está sem precisar que alguém publique. É permanecer depois que o assunto esfria. É lembrar no dia seguinte. É aparecer quando não há plateia, postagem ou risco de parecer indiferente.
Depois que nossa mãe morreu, ficamos nós três dentro daquela casa: eu, Cristina e Ana (Ana morando em Manaus/Am é presença todos os dias e todas as horas...) E sempre foi nós três! Três mulheres tentando sustentar o teto, a memória e umas às outras. Sem manual. Sem intervalo. Sem saber exatamente como continuar vivendo num lugar onde ainda existiam os objetos dela, mas já não existia a voz...
Talvez minha postagem tenha sido também uma pequena armadilha, Confesso.!
Uma luz acesa no corredor escuro para descobrir quem ainda conhecia o caminho até nós... E alguns só chegaram porque alguém avisou que havia luz.
Foi então que entendi uma coisa incômoda... Há famílias que só enxergam a dor quando ela ganha legenda, só escutam quando o silêncio vira publicação ou só oferecem a mão depois que o sofrimento circula (o quê é o pior)
Sangue produz parentes... Presença produz família! E família, felizmente, não é uma sentença definitiva escrita na certidão, sabe!. A gente também escolhe quem merece ficar dentro desse nome.
E, sobretudo, quem já saiu dele há muito tempo, embora ainda não tenha percebido. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/07/2026
Alterado em 14/07/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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