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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A boca da flor...

Ele estava ali, quieto, com a cabeça pousada sobre as cartas, como quem cansou de lembrar e resolveu dormir por cima da própria saudade. Os olhos, muito abertos, pareciam ainda presos em alguma coisa que ninguém mais via... Talvez um nome, uma despedida, ou, alvez só aquele tipo de amor que, quando passa, deixa a casa toda meio escura.

 

Na mão, a flor vermelha. Mas flor, flor mesmo, aquilo não era... Era uma boca calada. Um beijo que ficou sem destino. Uma vontade antiga, que a gente guarda no peito e, de vez em quando, ainda queima.

 

As cartas estavam espalhadas embaixo dele, cheias de palavras miúdas, promessas bonitas, frases que talvez nunca tenham chegado a ninguém... O papel também sangra, só que em silêncio... em versos... E ele tocava a pétala devagar, como se pedisse desculpa ou como se esperasse resposta...

 

Mas a flor não dizia nada!

 

E talvez fosse isso que doesse mais: descobrir tarde demais que algumas coisas, quando não são ditas no tempo certo, passam a vida inteira falando dentro da gente.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 07/07/2026
Alterado em 07/07/2026
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