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A mulher que comentava o mundo...Ela comentava posts como quem abria uma janela no meio do calor.
Falava de contrato público, porto, minério, soja, avião, Palestina, Irã, Japão, China, amor, cansaço e açaí com farinha de tapioca como se tudo viesse do mesmo lugar.
E vinha.
Porque, no fundo, ela já tinha entendido que nada no mundo acontece longe de verdade.
Uma guerra do outro lado muda o preço da comida na feira. Um navio parado mexe no prato de alguém. Uma bomba que cai distante atravessa o noticiário, entra na sala, aperta o peito, muda o silêncio dos homens.
Ela comentava com raiva, às vezes.
Mas não era ódio.
Era cansaço de ver gente fingindo que não entende. Era lucidez com olheira. Era uma mulher tentando costurar sentido num mundo que rasga tudo muito depressa.
No Pará, aprendeu cedo que riqueza demais passando por cima de gente vira paisagem. Caminhão, porto, rio, minério, promessa, obra, contrato. Tudo bonito no papel. Tudo pesado no corpo de quem fica.
No amor, aprendeu outra coisa: mensagem bonita não é presença. Saudade dita em língua estrangeira também não esquenta cama. Tem gente que chega como febre, acende tudo, toca lugares que ninguém tocava mais… e depois vira distância.
E ela ficava ali, entre o mundo e o peito.
Comentava política porque sabia que política também é afeto. Comentava guerra porque sabia que guerra também chega na mesa. Comentava amor porque sabia que o corpo também é território ocupado por lembranças.
Não escrevia para parecer inteligente.
Escrevia porque alguma coisa dentro dela não aceitava o silêncio.
E talvez fosse isso que mais incomodasse.
Ela via as camadas. Via o que estava por trás da notícia, do edital, do discurso, do beijo, da ausência.
Ainda assim, comentava.
Não para ganhar discussão. Não para convencer quem já tinha escolhido não enxergar.
Comentava porque deixar o mundo mentir sozinho também era uma forma de abandono.
E ela, mesmo cansada, ainda não tinha aprendido a abandonar tudo. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 05/07/2026
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