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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


eu demorei para entender que nem toda presença forte vem para ficar.

Carta de despedida...

 

Algumas pessoas chegam como se já conhecessem lugares antigos dentro da gente. Chegam sem pedir licença, encostam em memórias, atravessam defesas, acordam partes adormecidas, fazem o corpo lembrar de coisas que a razão nem sabe explicar.

 

Você foi assim.

E talvez eu também tenha sido isso para você.

 

Quando você me disse que lembrava de mim todos os dias, que eu vinha à sua cabeça quando você acordava, que meu toque acessou memórias muito íntimas suas, eu senti uma mistura difícil de explicar. Uma parte minha ficou em silêncio. Outra parte quis acreditar que aquilo era destino. Que talvez existisse ali alguma coisa rara, dessas que a vida não entrega duas vezes.

 

Porque eu também senti.

 

Senti no jeito como a gente se chamou de delícia, no riso escondido, na lembrança do corpo, no carinho misturado com desejo, na intimidade estranha de quem teve pouco tempo e, ainda assim, tocou fundo demais.

 

Mas hoje eu preciso ser honesta comigo.

 

Você me sente, mas não está disponível para mim como eu preciso.

E eu não digo isso com raiva.

 

Digo com tristeza.... Com lucidez.

 

Com aquele tipo de maturidade que a gente só aprende depois de cansar de esperar por quem chega pela metade.

 

Talvez você tenha medo. Talvez tenha limites. Talvez tenha uma vida que não abre espaço para mim. Talvez você não queira enfrentar o que uma presença como a minha exigiria de você. Talvez você também me guarde em algum lugar bonito, mas distante, como quem guarda uma lembrança que não sabe transformar em escolha.

 

Eu entendo.

Mas entender não significa permanecer.

Eu não posso mais viver presa ao quase.

 

Quase fomos... Quase cabíamos... Quase dava... Quase era amor... Quase era destino...

Quase era coragem.

 

E o quase, também machuca. Às vezes machuca mais do que o fim, porque ele não fecha a porta. Ele deixa uma fresta. E a gente fica ali, olhando por essa fresta, esperando uma luz que talvez nunca venha.

 

Eu já vivi outros encontros assim. Gente que parecia alma gêmea, mas era inacessível. Gente que tocou minha pele, minha história, minha saudade, minha vontade de ser vista. Gente que poderia ter sido muito, mas escolheu ou só conseguiu ser pouco.

 

E eu vou ficando.

Vou ficando cada vez mais abraçada com o tempo.

 

Cada vez mais íntima da minha solitude.

 

Cada vez mais consciente de que talvez eu caminhe só por esta vida — não por falta de amor dentro de mim, mas porque eu aprendi que não posso mais me abandonar para caber na indisponibilidade de ninguém.

 

Eu gosto de você.

Talvez mais do que eu devesse.

 

Gosto da lembrança que ficou. Do desejo. Da delicadeza escondida. Da forma como você me percebeu em lugares que quase ninguém percebe. Gosto até do silêncio que você deixou, porque ele também me ensinou alguma coisa.

 

Mas eu preciso me escolher agora.

 

Preciso recolher meu corpo, meu afeto, minha expectativa e minha doçura.

Preciso parar de esperar que alguém inacessível se torne lar.

 

Você pode lembrar de mim todos os dias.

 

Pode me guardar no cheiro, no toque, na memória, no nome bonito que a gente inventou um para o outro.

 

Mas eu não posso mais morar apenas na sua lembrança... Eu sou mulher de presença! De carne... riso... conversa... de cuidado e de verdade! Eu não nasci para ser só saudade na vida de alguém.

 

Então eu me despeço... Não porque foi pouco.

Mas porque foi profundo demais para continuar sendo nada.

 

Eu te deixo com aquilo que você sentiu de mim... E fico comigo! Com minha estrada... minha vida e com minha solidão, que às vezes dói, mas pelo menos não me promete o que não pode cumprir...

 

Guarde-me com carinho, se puder.

Eu também vou guardar você.

 

Mas agora, de longe... Sem esperar e nem pedir ou insistir... sem tentar transformar memória em futuro, porque há encontros que não terminam por falta de sentimento.

 

Terminam por falta de caminho... E eu, preciso continuar caminhando.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/07/2026
Alterado em 05/07/2026
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