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A matemática triste dos encontros
A conta que não fecha, Diego! Quando ele veio falar de quantidade... E eu, olha, já estava falando de cansaço fazia era tempo. Só que nem sempre a gente diz isso logo de cara, né? A gente disfarça. A gente ri... Responde como se fosse só mais uma conversa besta, dessas que começam com “oi, tudo bem?” e, quando a gente vê, já encostou num lugar antigo da vida da gente...
Foi mais ou menos assim. Ele perguntou: — Tu tá solteira há quanto tempo?
Aí eu respondi quase rindo. Não foi riso de graça, não. Foi aquele riso que a gente dá quando a resposta parece simples, mas por dentro vem com anexo, planilha, histórico, justificativa, rodapé e observação no final... hahaha e seca respondi: — Uns cinco anos.
Mas ai pensei, deixa eu explicar até para eu relembrar também...Hahah. Porque dizer “cinco anos solteira” parece uma coisa seca, parece que eu fiquei cinco anos parada, trancada dentro de casa, olhando a chuva cair em Belém e em outros estados que morei, esperando alguém bater na porta com um buquê de flor. E não foi isso...
Teve gente... Alguns encontro e até reencontros (que nem deveria ter ocorrido... Mas em fim!) e teve muita conversa e algunas participações especial, que levo até hoje comigo com contatos frequentes, trocas de informações, atualização sobre a vida e que dá saudade até! ... ai ai... Mas, teve também aquele tipo de pessoa que aparece, anima um pouquinho, depois some como se tivesse pegado o beco sem avisar. Teve homem que queria chegar... que parecia que ia ficar, outros que chegou só até a beira, olhou, achou fundo demais e voltou.
Então não era falta de gente, entende? Gente tem! Mensagem tem... Interesse até tem, mas o problema é outro!!
O caso é que encontrar alguém que passe da primeira camada. Porque a primeira camada todo mundo vê, assim como, a foto, a risada, uma frase mais bonita, um pedaço de mistério, uma vontade de saber se dá alguma coisa. Mas atravessar isso, sentar com calma, escutar de verdade, perguntar uma coisa e esperar a resposta sem pressa... aí, meu amigo, é outra história.
Diego dizia que pra mulher era mais fácil. E eu entendi o lado dele, de verdade...
Ele dizia que mulher recebe mais mensagem, que mulher escolhe mais, que homem tem que ir lá, mandar, puxar assunto, insistir, se expor, levar vácuo, levar fora, parecer interessado demais, tentar de novo. Falou de cem mensagens num fim de semana e menos de cinco respostas.
Égua, eu ouvi aquilo e pensei: tá aí uma dor que eu não vivo desse jeito, mas também não posso fingir que não existe... Porque do lado dele tinha uma frustração sincera. Não era só reclamação de homem querendo se fazer de coitado, não. Era um cansaço real. O cansaço de quem bate em muita porta e começa a desconfiar da própria mão. Começa a pensar: será que eu sou tão sem graça assim? Será que ninguém me vê? Será que eu tô falando errado? Será que eu preciso ser mais bonito, mais rico, mais engraçado, mais desenrolado, mais sei lá o quê?
E eu, do meu lado, também tinha o meu cansaço... Só que o meu era diferente e ele vinha de porta demais aberta pra lugar nenhum... Entende?!
Porque tem uma coisa que talvez homem nem sempre entenda: receber mensagem não significa receber presença. Receber elogio não significa ser vista ou um convite não significa ser escolhida... Às vezes é só barulho!É só um caçador, buscando uma caça... Ou muitas vezes, é só alguém jogando conversa igual quem distribui panfleto na Presidente Vargas, entregando pra todo mundo pra ver quem pega.
A mulher recebe mensagem, sim. Recebe “oi linda”. “ oi sumida”. “bora tomar uma”. “tu é muito bonita”. "gostosa que saudade". "ah, penso em você todo dia".. Ai, que cansaço... Além, de recebe também uma certa pressa, algumas safadeza sem intimidade (que é um oh!), elogio sem escuta, desejo sem cuidado, pergunta pronta (o que tá fazendo de bom!? aff...) , conversa repetida, homem querendo intimidade antes de saber o mínimo da tua vida.
E aí a pessoa de fora olha e diz: — Mas tu tem opção. hummmm... Até Tenho!! Quantidade... Já opção é outra coisa... Quantidade é quando aparece muita coisa e opção é quando alguma coisa presta, combina, respeita, conversa, permanece, tem intenção... E aí é que a conta começa a não fechar.
Diego falava de probabilidade. Eu falava de experiência.
E talvez nós dois estivéssemos certos. Porque existe mesmo uma tristeza em procurar e não encontrar e aquela tristeza muito grande em mandar mensagem e sentir que tua presença não mexe nem um tiquinho na curiosidade de ninguém. Deve ser muito ruim se oferecer ao mundo e receber só silêncio de volta... Mas também existe uma tristeza danada em ser procurada por muita gente e, mesmo assim, não se sentir encontrada, pois é...Parece contraditório, mas não é!
É como estar no meio de uma grande festa, no meio daquele movimento todo, gente passando, pessoas chamando o garçon... Barulho pra todo lado... e ainda assim tu te sentir sozinha. Porque barulho não é companhia. Movimento não é afeto. Gente por perto não quer dizer presença de verdade.
Eu até tentava explicar isso pra ele... Talvez eu tenha explicado demais (hahaha). Eu sou dessas... Quando vejo, já estou abrindo três parênteses dentro de uma frase, porque tenho medo da pessoa entender só metade e achar que eu tô sendo injusta.
Eu queria dizer: — Diego, eu entendo teu lado. Mas entenda o meu também!
Porque, pra ele, a dor era a ausência... Já pra mim, muitas vezes, a dor era o excesso vazio! Ele cansado de não ser respondido... Eu cansada de responder e perceber que não tinha nada ali... Ele cansado de procurar e eu cansada de filtrar... E oh! Filtrar cansa, viu? Cansa de um jeito besta, mas cansa!!
Porque toda conversa nova exige uma energia. Tu tenta ser educada, tenta ser aberta, tenta não julgar rápido, tenta dar chance. Aí vem a mesma abordagem, o mesmo papo raso, a mesma pressa, o mesmo interesse que começa quente e morre antes de virar qualquer coisa decente... E a gente vai ficando com preguiça, sabe! Não preguiça de amar, mas de explicar o básico ou de ensinar adulto a conversar... Preguiça de dizer que corpo não é senha de entrada e também em perceber que a pessoa nem queria te conhecer, queria só ver se conseguia alguma coisa contigo. E isso vai dando uma canseira....
Diego dizia: — Mas se não tem quantidade, nem chance de qualidade aparece. E eu pensei: ele tem razão?! Mas também pensei: quantidade sem intenção vira entulho.!
E é bem aí que a matemática dos encontros dá problema. Porque aplicativo, redes sociais, fila do pão, do caixa... faz a gente achar que gente é número. Dez curtidas, 03 sorrisos, mil olhares te comendo.. E poucas conversas, no whatsapp (que já está cansando tanta gente...) têm lá cem mensagens dessas, cinco respostas de grupo de venda.. Continuando o fracasso e tentativa... alguns encontros, alguns sumiços. Hahaha, dois ou três traumas e para fechar a vida de quem busca companhia... uma esperança besta no final da noite!
Só que coração não é planilha como eu queria que fosse... Tu pode ter cem mensagens e nenhuma conversa, pode ter dez encontros e nenhuma presença... pode ter alguém falando contigo todo dia e, ainda assim, sentir que a pessoa nunca chegou de verdade.
A conversa com Diego ficou simples, mas cheia de coisa por baixo! Ele tentando explicar a lógica... Eu tentando explicar a vida.
E vida, caro leitor, quase nunca cabe na lógica. A gente até tenta organizar, mas ela escorre... Atravessa pelos lados.. Algumas vem com passado, medo, vaidade, carência, trauma, desejo, esperança, preguiça, orgulho, saudade, tesão, insegurança... Vem tudo misturado, igual chuva forte em fim de tarde: tu olha pro céu e pensa que vai ser só uma nuvem, daqui a pouco tá tudo alagado.
No fundo, eu acho que a gente não estava falando só de conhecer alguem... estavamos falando de rejeição! Ele da rejeição de não ser respondido... Eu da rejeição de ser olhada, mas não ser percebida e olha que coisa doida: parecem dores opostas, mas moram na mesma rua...hahah.
Porque os dois lados querem a mesma coisa.
Só que quase ninguém quer admitir isso. Fica feio, parece carência. A pessoa prefere dizer que está de boa, que não liga, que tanto faz, que se vier veio, se não vier amém. Mas lá dentro, quietinho, tem uma vontade de alguém chegar e dizer: “eu fiquei porque gostei de ti, não porque era mais fácil, não porque eu estava entediado, não porque tu respondeu primeiro, não porque eu precisava provar alguma coisa”. Só isso!!
Uma escolha limpa... Sem jogo ou disputa! Sem essa pavulagem toda de parecer ocupado demais, frio demais, desejado demais, forte demais... Porque cansa também essa obrigação de performar.
O homem performa confiança e a mulher performa leveza (eu acho!). O homem tenta não parecer rejeitado e a mulher tenta não parecer disponível demais. Um finge que não se importa e o outro também...
Aí pronto: duas pessoas querendo colo e se tratando como se estivessem negociando contrato. É muito ruim isso! E talvez seja por isso que tanta conversa morre antes de nascer o primeiro paragrafo! Porque ninguém chega inteiro, sabe! Um chega se defendendo... Outro chega testando... Um quer atenção, mas não quer parecer que quer... Outro quer cuidado, mas tem medo de pedir.
Aí vira um jogo besta de quem demora mais pra responder, quem demonstra menos, quem parece mais interessante, quem vence a etapa...
Diego falou que o pior era a sensação de procurar e não encontrar porque ninguém se interessa por você. Aquilo me deu uma pausa... Porque eu conheço esse lugar, só que por outro caminho! Eu conheço a sensação de pensar: as pessoas até se interessam, mas será que é por mim mesmo? ou é pela foto? ou corpo? ou a ideia que fizeram do que viram, ouviram ou leu... Ou curiosidade pela curiosidade mesmo... Porque, quando o barulho acaba, quando a beleza não está performando, quando a pessoa está cansada, sem maquiagem emocional, sem frase pronta, sem vontade de agradar... quem fica? Quem conversa no dia sem brilho? Quem respeita o silêncio do outro, sem achar que algo está errado? Quem não usa a tua abertura, tua confidencia contra ti mesmo depois?
Isso é que é difícil... Conhecer gente é fácil, Diego!! Difícil é encontrar alguém que chegue sem invadir.
E, olha, eu sei que isso parece muita exigência. Talvez seja mesmo. Mas depois de certa idade, depois de certas perdas, depois de certas histórias, a gente não quer mais qualquer presença só pra dizer que tem alguém. A gente quer paz. Quer alguém que não aumente o peso da vida. Quer uma companhia que não venha com manual de sobrevivência.
Porque solidão ruim existe. Mas companhia errada também pesa que é uma desgraça!! E então talvez eu tenha dito pra Diego, de um jeito mais simples: — Diego, tu tá cansado de procurar. Eu tô cansada de escolher entre coisa vazia.
E pronto... Era isso!! Ele falando da falta e eu do excesso! Mas os dois falando da mesma fome... A fome de ser visto com calma, de encontrar alguém que não venha só passar o tempo... E isso hoje anda raro! Não porque falte gente... Gente tem em pencas..hahaha... Mais o quê o que anda faltando é gente disponível de verdade... que escute... que não chegue armada! Que saiba falar sem atropelar e que prefira conhecer antes de possuir...
Talvez o amor, antes de ser amor, comece bem menor... Comece numa conversa sem pressa, com cuidado miúdo, Num “me explica melhor”... ou “eu entendi teu lado”... ou ainda “não vou te usar pra provar nada” ou “não quero só tua atenção, quero tua verdade também!"
Talvez comece quando duas pessoas param de defender suas teses por um instante e admitem, com uma humildade quase bonita: — Que quase ninguém sabe mais chegar com o coração inteiro na mão!
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/07/2026
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