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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Tu me confundes, sabes?

Eu queria te escrever devagar, do jeito que a chuva cai em Belém quando resolve ficar. Porque tu não és assunto de resposta curta. Tu és daqueles que a gente tenta explicar e, quando vê, já se enrolou toda no próprio pensamento.

 

Tu me confundes, sabes?

 

Tem hora que eu quase me afasto. Não por raiva, nem por falta de querer. É porque tu chegas feito vento de rio: encostas, mexes em tudo, depois vais embora como se nada fosse. E eu fico aqui, com essa sensação besta de que tu estás perto mesmo estando longe. Isso me aperreia um pouco, porque eu sou mulher de querer chão, palavra firme, coisa clara. Mas contigo parece que tudo vem meio encoberto, feito tarde de chuva grossa.

 

Só que aí tu me puxas de novo.

 

Me puxas pela tua beleza, pelo teu jeito gentil, pelo teu corpo, por essas coisas que tu dizes como quem não sabe o estrago bonito que faz. Tu tens uma doçura escondida, uma intimidade que não chega fazendo barulho. Ela vem miudinha, em gota: uma frase, uma lembrança, uma confissão, uma imagem tua… e pronto. Quando eu percebo, já estou pensando em ti no meio do dia, como quem sente cheiro de café vindo de uma casa antiga.

 

Não vou te mentir: eu não estou perdida. Minha vida segue. Eu trabalho, resolvo minhas coisas, faço minha cara séria, boto ordem no mundo do jeito que dá. Sou cabocla mestiça, meu bem, feita de sol, água barrenta, teimosia e afeto. Já aprendi a atravessar muita maré.

 

Mas seria mentira dizer que tu não me atravessas.

 

Tu me pegas justamente porque tens um contraste danado: essa distância de estrangeiro, esse mistério de quem veio de longe, e ao mesmo tempo uma delicadeza que chega perto demais. Um desejo vestido de cuidado. Uma saudade que eu ainda não sei se é promessa, lembrança ou só encanto se engraçando comigo.

 

Talvez seja isso que mais me desarme: tu não me tomas de uma vez.

 

Tu vens aos poucos.

 

No silêncio.

 

Nos detalhes.

 

Nas pequenas intimidades que ficam depois da conversa, feito gosto de jambu na boca: parece que passou, mas ainda está tremendo.

 

Eu não sei direito o que tu provocas em mim. Talvez nem queira saber agora. Só sei que tem algo em ti que mistura beleza, desejo e uma doçura perigosa, dessas que fazem uma mulher baixar a guarda sem perceber.

 

E eu, que sempre achei que conhecia meus próprios caminhos, fico assim: meio desconfiada, meio acesa, meio rindo de mim mesma.

 

Gosto de lembrar o quanto tu és lindo. Gosto de lembrar tua gentileza. Gosto de lembrar teu corpo, teu cheiro imaginado, teu jeito de me olhar mesmo de longe. Mas gosto, principalmente, de sentir que existe em ti alguma coisa rara, guardada, quase secreta, que de algum modo resolveu chegar até mim.

 

Talvez tu nem saibas o quanto mexes comigo.

 

Ou talvez saibas.

 

E talvez seja bem aí que more o teu perigo.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 29/06/2026


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