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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Ele nunca foi embora realmente...

Há pessoas que a gente conhece numa cidade e deixa guardadas no mapa do corpo.

Foi assim.

 

Ele passou por Belém, e nós ficamos. Simples assim, embora nada que mexa com a gente seja realmente simples. Belém tem esse jeito de testemunhar encontros como quem sabe demais: o calor grudando na pele, a chuva chegando sem pedir licença, a cidade inteira parecendo molhada de desejo e memória. Algumas pessoas passam por lugares. Outras passam pela gente.

 

Depois, como acontece com tanta coisa na vida adulta, o contato se perdeu... Não houve tragédia, nem cena de novela, nem despedida com trilha sonora. Apenas o tempo fazendo seu trabalho burocrático: mudando rotas, apagando conversas, empilhando dias, colocando responsabilidades em cima das lembranças. A gente segue. Trabalha. Ri. Resolve problemas. Compra coisas que não precisa. Finge maturidade com alguma competência.

 

Até que, do nada, ele volta... hahahah... E o “do nada” é uma das grandes mentiras da vida. Quase nada volta do nada. Volta porque ficou. Volta porque alguma parte não terminou. Volta porque certas presenças continuam circulando dentro da gente, discretas, como uma música tocando baixo no cômodo ao lado.

 

Ele voltou sem teatro. Sem pedir licença ao calendário. Sem consultar minha estabilidade emocional, essa entidade frágil que eu tento preservar com café, planilhas e bom senso. Chegou e falou. E falou de um jeito raro: sem medo, sem culpa, sem receio.

 

Disse quem era... do quê queria, do que sentia e do quê causei, sem imaginar que leria coisas tão ricas, tão intimas que inundaria meus olhos!

 

Ele se mostrou na versão não socialmente bem-comportado... Não o currículo afetivo..hahah, e nem o personagem editado para caber na vitrine dos outros... Disse de si com a coragem de quem se cansou de pedir desculpas pela própria verdade. E há algo profundamente bonito nisso: alguém se apresentar inteiro, com suas sombras, desejos, doçuras, estranhezas e confissões, sem tentar embrulhar tudo em papel aceitável.

 

A gente vive num mundo em que todo mundo quer ser autêntico, desde que a autenticidade venha filtrada, legendada e com boa iluminação. Então, quando alguém chega e diz “eu sou isso aqui”, sem baixar os olhos, a alma da gente leva um susto.

 

A minha levou.

 

Não apenas pelo que ele revelou, mas pelo que disse sobre mim. Pelo impacto que eu tinha causado. Pelo modo como eu havia ficado nele sem saber. É curioso descobrir que fomos memória na vida de alguém enquanto estávamos ocupadas sendo apenas nós mesmas. A gente atravessa um encontro achando que deixou só perfume no travesseiro, uma risada, uma cena qualquer. E, anos depois, descobre que deixou marca.

 

E isso desorganiza!! Porque ser desejada é uma coisa. Ser lembrada é outra. Ser reconhecida no efeito que causou em alguém é quase uma pequena vertigem. Dá vontade de rir, desconfiar, perguntar se a pessoa não está exagerando, essa mania feminina de diminuir o próprio poder para não parecer convencida. Mas, no fundo, alguma coisa se ajeita por dentro e pensa: então eu estive lá. Então eu fui importante. Então aquela versão minha, naquela cidade, naquele encontro, naquela hora, não desapareceu.

 

Talvez a vida seja isso: a gente indo embora de alguns lugares e continuando sem saber.

 

Ele voltou de repente, mas trouxe uma continuidade. Trouxe Belém de volta. Trouxe a mulher que eu era naquele tempo. Trouxe a lembrança de um encontro que parecia ter ficado para trás, mas estava apenas respirando em silêncio.

 

E eu, que achava estar apenas respondendo uma mensagem, me vi diante de uma espécie de espelho. Não um espelho vaidoso. Um espelho humano. Desses que mostram que a gente também impacta, também atravessa, também acende coisas nos outros.

 

Há encontros que acabam na despedida... E há encontros que continuam trabalhando por dentro, quietinhos, até encontrarem coragem de voltar... E ele voltou dizendo quem era! lindo... lindamente despido de pudores e receios e repleto de fogo, vontades e acolhimento...

 

E, sem perceber, me lembrou também quem eu fui.

Quem eu sou...

E quem ainda posso ser quando a vida, com sua ironia fina, resolve bater à porta usando uma notificação, que já achava ter mudado de mundo!

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/06/2026
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