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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O crime de ainda escrever

Me perguntaram se eu usei IA.

 

Não foi nem uma pergunta bonita. Foi aquele tipo de pergunta que já vem com julgamento dentro.

 

Eu li e fiquei olhando para a tela um tempo.

 

Porque ninguém perguntou se eu tinha escrito com raiva. Ninguém perguntou se aquilo tinha me dado enjoo. Ninguém perguntou se eu tinha visto os comentários sobre uma menina morta e ficado sem saber se respondia, se xingava, se fechava o celular.

 

Não... A pergunta foi se era IA.

Hoje é assim!

 

A pessoa aparece num vídeo, dubla uma frase que não escreveu, recita texto pronto, coloca uma música triste, faz pausa, olha para o lado... e todo mundo acha profundo.

 

Mas se alguém escreve, pronto... Se a frase vem um pouco mais arrumada, desconfiam.

 

Se o texto não sai todo torto, desconfiam... Se a pessoa revisa antes de publicar, desconfiam também.

 

Como se escrever bem fosse uma espécie de fraude... Eu acho isso de uma pobreza danada! 

 

Texto sempre deu trabalho. Pelo menos para quem escreve de verdade. A gente começa de um jeito, apaga, muda uma palavra, tira uma frase que parecia boa, volta depois, lê em voz alta, corta o excesso. Às vezes o texto nasce feio mesmo. Cheio de raiva. Depois a gente limpa um pouco, não para fingir nada, mas para não jogar no mundo só o vômito.

 

Isso também é escrever...

Mas tem gente que não quer ler. Quer julgar, quer chamar atenção de outra pessoa para que formem grupo de ataque... Tipo aqueles que lê três linhas, vê uma frase mais ajeitada e já solta: “isso é IA”...  E fica por isso mesmo.

 

Não discute a ideia. Não fala do assunto. Não diz onde discorda. Só tenta tirar a autoria da pessoa. Como se fosse mais fácil acreditar numa máquina do que aceitar que alguém ainda consiga juntar pensamento com palavra.

 

O mais engraçado é que vídeo ninguém questiona.

 

Tem vídeo por aí com roteiro pronto, frase pronta, legenda pronta, indignação pronta. Tudo empacotado. Mas como tem rosto, maquiagem, voz tremida e uma musiquinha atrás, parece humano.

 

O texto não tem esse enfeite.

Ele fica ali, sozinho.

 

Sem filtro. Sem boca tremendo. Sem cenário bonito. Sem mão no peito. Sem olhar perdido para a janela.

 

Só o texto.

Talvez por isso incomode.

 

Porque ele não distrai. Ele obriga a pessoa a lidar com a frase. E tem frase que cutuca. Tem frase que pega. Tem frase que faz a pessoa se sentir menor do que gostaria...  Aí chamam de IA!

 

Não porque tenham certeza... Mas porque é uma saída rápida. ((Aqui tem IA, pois essa frase é refinada e sonora demais para um humano escrever... sera???))

 

Eu não tenho problema nenhum com a pergunta, quando ela vem com educação. O problema é a acusação atravessada. Esse jeito de entrar no texto dos outros chutando a porta. Essa mania de achar que, se uma mulher escreve com alguma firmeza, alguma coisa ali deve ser falsa.

 

Como se mulher só fosse verdadeira quando se explica demais.... Ou se o pensamento precisasse vir bagunçado para ser aceito, aí sim, ok... Parabéns pela criastividade, pelo pensamento crítico... afinal, tem erro de digitação, de singularidade, de concordância e até de sinapses... hahah

 

Como se humanidade fosse sinônimo de descuido.... Ora ora... Às vezes a frase ficou boa porque a pessoa leu e outras vezes, ficou forte porque doeu... Ou ainda porquê ficou simples porque antes estava cheia de coisa sobrando...

 

E para a surpresa dos julgadores de internet, às vezes... Bem, as vezes, a pessoa só sabe escrever, sabe?! Sem dublar ninguém...

 

Sem pedir desculpa por ainda preferir escrever um texto.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/06/2026
Alterado em 16/06/2026


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