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Apaga as mensagensEu devia ter percebido antes. Mas a gente quase nunca percebe quando quer acreditar um pouco.
A conversa começou sem nome. Era só uma troca, uma gentileza, um comentário, uma dessas portas pequenas que a internet abre no meio de uma noite qualquer. Eu estava ali. Ele também. Dois cansaços diferentes fingindo que era só conversa.
Ele falava com um jeito meio quebrado. Não quebrado bonito, desses que a gente romantiza em texto. Quebrado mesmo. Meio cansado. Meio ferido. Meio querendo ser visto sem precisar pedir isso com todas as letras.
E eu vi.
Talvez esse tenha sido o erro. Ou talvez não tenha sido erro nenhum. Talvez eu só tenha feito o que faço quando encontro alguém com uma tristeza parecida com a minha: eu encosto a mão, mesmo sabendo que posso me cortar.
Fui dizendo coisas. Que ele tinha sensibilidade... que devia escrever... que algumas dores, quando não matam, viram alguma coisa. Arte, talvez. Ou só uma forma menos feia de continuar respirando.
Falei de café. De abraço. De voo. De não duvidar dele. Falei demais, talvez. Mas eu não estava mentindo.
Tem uma parte minha que ainda acredita nisso: que certas pessoas só precisam que alguém diga “eu estou vendo você”. Não para salvar. Não para tomar para si. Só para a pessoa não desaparecer tão sozinha dentro dela mesma.
Só que tem gente que gosta de ser vista até a luz incomodar.
Ele vinha e voltava. Agradecia. Recuava. Mandava coração. Dizia que não queria me arrastar. Depois perguntava da foto. Depois dizia que era melhor ficar calado. Depois voltava com um texto lindo sobre travessia, águas, lágrimas, essas coisas que a gente lê e fica quieta porque bate em algum lugar que já estava roxo.
Eu lia e pensava: pronto, tem alguém vivo aí.
Mas vivo também machuca.
Não sei explicar direito. Era bonito e estranho ao mesmo tempo. Uma conversa com ternura, mas com uma sombra andando junto. Como se cada palavra tivesse que pedir licença antes de existir.
E então veio a frase.
“Pra melhor consciência, apaga as mensagens por favor.”
Fiquei olhando.
Não foi raiva de primeira. Foi outra coisa. Um nojo triste. Uma vergonha que nem era minha, mas caiu no meu colo.
Apagar por quê?
Porque eu tinha sido carinhosa? Porque eu tinha dito que ele era bonito por dentro? Porque ele gostou de ouvir? Porque tinha alguém do outro lado da vida dele que não podia saber? Porque a consciência dele só funcionava depois que a conversa já tinha acontecido?
Eu não respondi na hora tudo que pensei. A gente quase nunca responde. A gente responde pequeno para não parecer louca, para não parecer intensa, para não parecer mulher demais.
Mas doeu.
Doeu porque, de repente, parecia que eu tinha virado resto. Uma coisa boa o bastante para a madrugada, mas inconveniente demais para permanecer na tela.
E eu não tinha feito nada escondido de mim. Eu estava inteira ali. Talvez até inteira demais.
Pensei na minha mãe. Não sei por quê. Ou sei. Depois que a gente perde uma referência, qualquer gesto de cuidado parece maior. Qualquer frase bonita parece casa. Qualquer pessoa sensível parece um lugar onde a gente pode sentar um pouco e descansar do mundo.
Mas nem todo lugar com luz é casa.
Às vezes é só uma janela acesa num quarto que não é nosso.
Eu fiquei com isso.
Com a tela na mão. Com as mensagens ali. Com a palavra “consciência” atravessada na garganta.
Engraçado isso. A consciência dele precisou que eu apagasse o que os dois escreveram. Como se a limpeza dele dependesse do meu silêncio.
Não sei se ele é mau. Acho até que não. Talvez seja só confuso. Talvez esteja preso em coisa antiga. Talvez goste de ser amado pela metade porque amor inteiro exige decisão. Talvez tenha se acostumado com dor, com drama, com mulher tentando entender o que ele mesmo não quer arrumar.
Também não me coloco como santa. Não sou. Eu gostei da troca. Gostei de ser escutada. Gostei de achar bonito o que ele escrevia. Gostei daquele tipo de conversa que parece que tira a gente da superfície por alguns minutos.
Mas gostar não me obriga a aceitar qualquer lugar.
E o lugar ficou claro ali.
Eu seria a mensagem apagada. A mulher que entende. A que acolhe. A que diz “fica tranquilo”. A que não dá trabalho. A que some para a consciência de alguém dormir melhor.
Não quero.
Não com raiva. Não com discurso. Só não quero.
Tem uma tristeza nisso, porque podia ter sido só bonito. Podia ter ficado no campo limpo da admiração, da palavra, da arte, do café prometido. Mas algumas pessoas colocam neblina onde poderia haver apenas tarde.
E eu já tenho neblina demais dentro de mim.
Então deixei a conversa ali por um tempo. Não apaguei de imediato. Talvez por teimosia. Talvez para lembrar de não entrar tão depressa em lugares onde alguém ainda está devendo verdade para outra pessoa.
Depois larguei o celular.
A casa estava quieta. Quieta demais.
E eu entendi, meio tarde, mas entendi: não era sobre ele apenas. Era sobre mim também. Sobre essa mania de enxergar beleza em homem quebrado e esquecer que rachadura também corta.
No fim, não sei se aquilo foi carinho, fuga, vaidade, desejo ou só duas solidões se esbarrando numa noite cinza.
Sei que doeu.
E sei que, dessa vez, eu não quero ser apagada para que alguém continue parecendo limpo. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 15/06/2026
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