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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Os homens que riem quando uma mulher morre

 

Maria Eduarda Rodrigues de Freitas tinha 21 anos.

 

Era de Jandira, em São Paulo. Gostava de esporte, de viagem, de passeio, de foto, dessas coisas simples que uma menina de vinte e poucos anos faz sem imaginar que, no dia seguinte, gente estranha vai estar olhando para a sua vida como se ela fosse só notícia.

 

No sábado, ela foi até a Ponte do Esqueleto, em Limeira, para fazer um salto de rope jump. Postou o lugar, a pulseira, os equipamentos, a preparação. Em um story, brincou: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???”.

 

A brincadeira ficou na internet.

 

Ela morreu.

 

Caiu de uma altura de cerca de 40 metros. As primeiras informações dizem que o equipamento de segurança não estava corretamente acoplado à corda que deveria sustentá-la. Isso agora precisa ser apurado com seriedade. Sem pressa para encerrar, sem desculpa pronta, sem tratar como azar aquilo que pode ter sido falha.

 

Mas teve outra coisa que apareceu junto.

 

Os comentários.

 

 

E eu queria dizer que me surpreendi. Não me surpreendi.

 

Homem rindo. Homem falando do corpo dela. Homem dizendo que ela procurou. Homem fazendo piada. Homem olhando para uma jovem morta e ainda achando um jeito de ser asqueroso.

 

Tem um tipo de homem que não espera nem a família chorar.

 

Ele chega antes. Com a boca pronta. Com a piada pronta. Com aquela coragem de rato que a internet dá. Não olha para a menina. Não pensa na mãe dela. Não pensa no susto de quem recebeu a notícia. Não pensa no quarto, nas roupas, nas fotos, nas coisas pequenas que agora vão ficar sem dona.

 

Ele olha e vê corpo.

 

Só corpo.

 

Mesmo morta, ainda corpo.

 

É isso que dá nojo.

 

Não é incômodo. Não é “opinião diferente”. É nojo mesmo. Daquele que sobe quando a gente percebe que, para uma parte dos homens, mulher não vira pessoa nem depois de morrer.

 

Ela não saiu de casa para morrer. Saiu para se divertir. Saiu porque confiou. Confiou em uma empresa, em uma equipe, em um equipamento, em alguém que deveria saber o que estava fazendo. Ninguém paga por uma experiência dessas achando que o básico vai falhar.

 

Mas para essa gente a culpa sempre acha um caminho até a mulher.

 

Se ela sorri, provocou.

Se posta foto, quis aparecer.

Se é bonita, vira assunto.

Se se arrisca, procurou.

Se morre, ainda precisa ouvir sentença de homem que nunca aprendeu a ter vergonha.

 

E o pior é isso: a falta de vergonha.

 

O cara escreve uma crueldade em público como quem comenta o tempo. Como se fosse normal. Como se fosse engraçado. Como se uma jovem morta fosse só mais uma chance de aparecer.

 

A internet não criou esse tipo de homem. Só deu microfone.

 

Antes ele talvez falasse isso numa mesa, num grupo fechado, num canto qualquer. Agora ele publica. Recebe curtida. Encontra outro igual. Ri junto. Faz print. Repete. E quando alguém aponta a sujeira, ainda se ofende.

 

É sempre assim.

 

Primeiro eles violentam com palavra. Depois chamam de brincadeira. Depois dizem que mulher exagera.

 

Aí uma mulher diz que tem medo de homem e eles fingem não entender de onde vem esse medo.

 

Vem daí.

 

Vem do comentário. Do deboche. Do assédio. Da rua. Do print. Do grupo. Da notícia. Da morte de uma menina virando piada antes mesmo de virar luto direito.

 

E eu entendo, cada vez mais, as mulheres que olham para esse mundo e não querem ter filhos.

 

Não é falta de amor. Às vezes é lucidez.

 

Porque um filho não nasce só para dentro da casa da gente. Nasce para o mundo. E o mundo tem escola, rua, internet, festa, trabalho, relacionamento, gente boa e gente podre. A mãe pode educar. Pode ensinar cuidado. Pode ensinar respeito. Mas uma hora a criança sai.

 

E dá medo.

 

Dá medo ter uma filha e vê-la crescer num mundo onde homem acha que liberdade feminina é autorização para humilhar. Dá medo ter um filho e vê-lo virar um desses meninos grandes, cheios de tela, cheios de meme, cheios de opinião, mas vazios de humanidade.

 

Ninguém nasce pronto para rir de uma mulher morta.

 

Alguém deixou esse menino chegar até ali.

 

Alguém achou graça quando ele falou do corpo de uma colega. Alguém disse que era coisa de homem. Alguém passou pano. Alguém ensinou pelo silêncio. Alguém nunca corrigiu. Alguém criou um homem sem freio por dentro.

 

Depois ele cresce.

 

Abre uma notícia de tragédia.

 

E escreve uma imundície.

 

Maria Eduarda não deveria estar servindo de exemplo para texto nenhum. Não deveria ser símbolo, assunto, manchete, post. Deveria estar viva. Deveria ter voltado para casa, contado como foi, rido do medo, mostrado o vídeo, dormido cansada e acordado no dia seguinte com a vida inteira ainda pela frente.

 

Mas ela morreu.

 

E a morte dela mostrou duas coisas.

 

Uma falha que precisa ser investigada pelas autoridades.

 

E outra falha, mais antiga, mais espalhada, mais fedida: a de homens que olham para uma mulher morta e ainda encontram motivo para rir.

 

Que a investigação alcance quem falhou no salto.

 

E que a vergonha, pelo menos uma vez, alcance quem falhou como gente.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/06/2026
Alterado em 16/06/2026


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