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Ex-Prefeito atira em ex-esposa em reunião de divórcio.
Há alguns anos estive em Ourilândia do Norte acompanhando a implantação de um sistema de abastecimento de água. Na época, conheci o então prefeito Romildo Veloso. Minha relação com ele foi profissional, como acontece com tantos gestores públicos, empresários, engenheiros e lideranças que cruzam nosso caminho ao longo da vida.
Por isso, ao acompanhar a tragédia que abalou a cidade nesta semana, minha primeira reação não foi de julgamento. Foi de espanto.
Talvez porque a vida real seja muito mais complexa do que as versões rápidas produzidas pelas redes sociais. Pessoas não são inteiramente boas ou inteiramente más. São feitas de contradições, escolhas, acertos e erros. Algumas deixam contribuições importantes por onde passam. Outras carregam dores que ninguém vê. E, às vezes, tudo isso habita a mesma pessoa.
Mas algo me chamou atenção desde os primeiros momentos.
Enquanto uma mulher ainda lutava pela vida e, depois, teve sua morte confirmada, boa parte da discussão pública passou a girar em torno dele. Falou-se da sua trajetória política, da sua atuação como médico, dos serviços prestados à comunidade, da doença que enfrentava, das suas dores e dos seus sofrimentos.
Ela foi desaparecendo do debate.
E quando voltou a ser assunto, não foi para que as pessoas falassem sobre sua história, seus sonhos, seus projetos ou sobre a vida que lhe foi retirada. Voltou para ser julgada.
Li comentários sobre uma possível traição. Sobre um possível relacionamento. Sobre o pedido de divórcio. Sobre escolhas pessoais que pertenciam exclusivamente à sua vida privada. Vi pessoas tentando descobrir o que ela fez, onde esteve, com quem esteve e por que decidiu encerrar o casamento.
Poucos pareciam interessados em uma pergunta muito mais simples.
Por que uma mulher precisou morrer?
Talvez esse seja o aspecto mais inquietante de toda a tragédia.
Quando uma mulher é vítima de violência, ainda existe uma tendência coletiva de procurar nela as explicações para o que aconteceu. Como se fosse necessário encontrar uma falha, um erro ou uma justificativa capaz de tornar o ato menos absurdo.
A discussão deixa de ser sobre a violência e passa a ser sobre a vítima.
A separação vira argumento.
A vida pessoal vira prova.
A liberdade de escolha vira acusação.
Não escrevo isso para negar o sofrimento de ninguém. Existem filhos, familiares e amigos vivendo uma dor que dificilmente conseguiremos compreender de fora. Há perdas irreparáveis dos dois lados. Há uma cidade inteira tentando lidar com o choque de ver uma história terminar dessa forma.
Mas algumas reflexões precisam ser feitas.
Uma doença não transforma ninguém em proprietário da vida de outra pessoa.
O sofrimento não concede direitos sobre a liberdade do outro.
O fim de um relacionamento pode ser doloroso, mas continua sendo um direito de quem deseja partir.
Nenhuma dessas situações deveria precisar ser explicada.
No meio de toda essa discussão, penso especialmente nos filhos. Enquanto as redes sociais disputam versões, procuram culpados e tentam reescrever a história, existem pessoas que terão de conviver para sempre com as consequências daquele dia. Não perderam apenas os pais. Perderam a possibilidade de uma despedida normal, de uma memória tranquila, de um luto sem manchetes e sem julgamentos públicos.
Talvez o fato mais revelador dessa tragédia não esteja apenas no crime que ocorreu dentro de um escritório de advocacia.
Talvez esteja na rapidez com que uma mulher morta precisou ser colocada no banco dos réus para que algumas pessoas encontrassem explicações para a sua morte.
E isso, infelizmente, fala muito sobre a sociedade que ainda somos. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 05/06/2026
Alterado em 05/06/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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