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O homem das estradas e a mulher das malasOutro dia fui parar no perfil de um homem.
Nada muito diferente do que fazemos às vezes. Uma curiosidade aqui, outra ali. Um clique que leva a outro. Uma foto. Um cargo. Uma certificação. Um pedaço da vida exposto numa tela de celular.
O perfil dele falava de aeroportos.
Estradas. Projetos. Pistas. Pontes entre lugares.
E aquilo me fez rir sozinha... Porque eu percebi uma ironia bonita, porque passei boa parte da minha vida dentro de malas.
Mudando de cidade, estado, projeto... Tentando construir alguma coisa enquanto desmontava outra. E ali estava alguém que passava a vida construindo caminhos para que outras pessoas chegassem aos seus destinos.
Talvez por isso a conversa tenha me tocado... Não pelas palavras, mas pelo lugar de onde elas pareciam vir.
Hoje existe uma epidemia de frases bonitas que estão por toda parte... Nas redes sociais, livros de autoajuda, palestras de coah... E em canecas de café!
O problema é que muitas delas não carregam ninguém dentro. São apenas palavras... Mas algumas carregam quilômetros com cicatrizes, despedidas... Eis a ironia, carregam aeroportos às três da manhã.... Carregam telefonemas difíceis.... Carregam saudades que ninguém vê! E tudo isso certas frases encontrem morada, quando ele disse que eu não era intensa demais, não ouvi um elogio... Ouvi alguém dizendo que entendia o preço de sentir.
Quando disse que eu não havia apenas sobrevivido, mas continuado vivendo, também não ouvi uma frase bonita.
Ouvi alguém reconhecendo um esforço só meu... Solitário até, porque sobreviver é automático é algo que o corpo faz... Mas continuar vivendo depois de certas perdas exige coragem.. Sem ser aquela coisa cinematográfica que as pessoas imaginam... Coragem, muitas vezes, é apenas levantar da cama... Atender uma ligação... Continuar um projeto... Abrir um documento... Responder um e-mail ou ainda em dar mais um passo sem saber exatamente para onde...
Mas enquanto observava aquele perfil cheio de aeroportos, estradas e obras, pensei numa coisa... Talvez a vida seja menos sobre encontrar pessoas iguais a nós e mais sobre encontrar pessoas capazes de reconhecer a estrada que carregamos por dentro, afinal, nem sempre elas ficam e Nem sempre precisam ficar... Algumas chegam apenas para acender uma lanterna em um trecho escuro da viagem.
E depois seguem.
Como viajantes que se encontram numa parada qualquer e compartilham um café, uma história e um pouco de humanidade antes de voltar para seus próprios caminhos.
Não sei se vou vê-lo novamente. Não sei se a vida guarda alguma continuação para essa história.
E, sinceramente, nem preciso saber. Há uma idade em que a gente para de exigir finais grandiosos de tudo... Aprende a agradecer os capítulos, sabe! E aquele foi um capítulo bonito... Diria que foi o suficiente para me lembrar que, apesar de todo o barulho do mundo moderno, ainda existem pessoas que olham para além da fotografia.
Além da profissão. Além da aparência.
Pessoas que enxergam a travessia. E quando isso acontece... Por alguns minutos, a bagagem fica mais leve. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 31/05/2026
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