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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O homem que meu corpo não esqueceu

O ano era 2021... novembro, Eu conheci um homem em Vitória. E talvez essa frase pareça simples demais para o tamanho da marca que ele deixou.

 

Não foi amor à primeira vista. Eu nunca gostei muito dessa expressão. Ela é limpa demais para certas coisas. Amor à primeira vista tem flor, música, promessa, alguma ingenuidade luminosa. O que aconteceu comigo foi menos comportado. Mais físico. Mais elétrico. Mais antigo do que a palavra amor.

 

Foi corpo.

 

Corpo reconhecendo corpo antes que a cabeça tivesse tempo de abrir uma ata, medir o risco, analisar o cenário e emitir parecer.

 

Eu tinha acabado de chegar em Vitória. Cidade nova, ar diferente, mala ainda com cheiro de deslocamento, aquela sensação estranha de quem desembarca em outro lugar e, por algumas horas, também desembarca de si mesma. Tem cidade que faz isso com a gente. A pessoa pisa fora da própria rotina e, de repente, uma versão guardada começa a respirar.

 

Naquele primeiro dia, eu fui essa versão.

 

Ou talvez eu apenas tenha deixado aparecer uma mulher que já existia, mas andava soterrada por baixo da profissional, da adulta, da mulher que decide, organiza, responde, resolve e segue em frente mesmo quando queria sentar no chão.

 

Com ele, essa mulher saiu da sala. Sem pedir licença. E ficou outra no lugar...Uma mulher menos gerente de si... Menos auditora do desejo... Menos comandante do próprio corpo... Menos preocupada em parecer inteira.

 

Com ele, eu não precisava ser forte. E talvez isso tenha sido mais perigoso do que o desejo.

 

Porque desejo a gente entende. Ou finge que entende. O corpo quer, a pele responde, a boca encontra, a noite cresce, a cama vira território. Isso ainda cabe em alguma explicação adulta. A gente pode chamar de química, atração, compatibilidade, intensidade.

 

Palavras bonitas para dizer que o corpo perdeu a educação... Mas aquela madrugada não foi só química... Foi uma espécie de rendição.

 

E eu, que sempre tive dificuldade de me render, reconheci o perigo tarde demais.

 

Ele tinha uma presença que não pedia licença ao meu controle. Não era brutalidade. Não era pressa. Não era essa masculinidade pobre de homem que acha que dominar é impor força, ocupar espaço e confundir desejo com poder.

 

Era outra coisa.

Uma firmeza.

 

Um jeito de chegar perto como quem sabia o que estava fazendo. Um jeito de tocar como quem não perguntava à minha cabeça, mas conversava diretamente com meu corpo. E meu corpo, esse traidor antigo da minha lógica, respondeu.

 

Respondeu demais... Houve um momento em que o prazer deixou de ser episódio e virou território. Eu não sei contar aquela noite direito. E talvez seja melhor assim.

 

Certas coisas, quando descritas demais, perdem o mistério e viram relatório íntimo. Não quero isso. Não quero transformar uma lembrança viva em inventário do corpo. Há experiências que precisam de sombra para continuarem verdadeiras.

 

Prefiro dizer de outro jeito:

 

naquela madrugada, meu corpo perdeu a noção de contagem.

 

Perdeu a ordem.

Perdeu a pose.

Perdeu o comando.

Perdeu aquela necessidade quase triste de continuar sendo a mulher que sabe exatamente onde pisa.

 

E foi bom. Bom de um jeito que assusta.

 

Porque a gente sabe lidar com o prazer mediano. Ele passa. Não deixa muita coisa. Vira lembrança simpática, às vezes nem isso. O prazer mediano é civilizado. Ele não reorganiza o arquivo interno de uma mulher.

 

Mas existem encontros que fazem morada no corpo... Mesmo quando não deveriam.

 

Mesmo quando a vida segue.

Mesmo quando a cidade fica para trás.

Mesmo quando a mulher muda de estado, de trabalho, de casa, de rotina, de cabelo, de discurso e de maturidade.

 

O corpo lembra.

E corpo lembrando é uma afronta à inteligência... Depois daquela primeira noite, houve outras.

 

Vitória deixou de ser apenas uma cidade no mapa e virou uma espécie de senha interna. Toda vez que eu pensava nela, não vinha primeiro a paisagem, nem o mar, nem o hotel, nem o deslocamento.

 

Vinha ele. Ou melhor: vinha eu com ele.

Essa é a parte mais importante.

 

Porque talvez a grande marca de certos homens não seja exatamente quem eles são, mas quem nós conseguimos ser perto deles.

 

Com ele, eu era outra. Ou era menos protegida... Ele me dominava, sim.

 

Mas não no sentido pequeno da palavra. Não como quem reduz. Não como quem apaga. Não como quem usa. Ele me dominava onde eu estava cansada de mandar.

 

E isso, para uma mulher como eu, era quase descanso. Eu passei a vida tendo que ser forte em muitos lugares. Forte no trabalho, forte nas mudanças, forte nas decisões, forte nas perdas, forte na estrada, forte na solidão, forte no improviso, forte até quando queria apenas fechar a porta e não responder mais nada.

 

A força vira vício....A gente se acostuma tanto a controlar que começa a achar que relaxar é risco... Mas, com ele, meu corpo encontrou uma forma estranha de descansar: obedecendo.

 

Essa frase me dá medo, porque pode ser mal interpretada. E eu não quero que seja.

 

Não era submissão como apagamento. Não era diminuir quem eu sou. Não era abrir mão da minha vontade. Era o contrário. Era escolher, com desejo, sair do comando por algumas horas. Era confiar o suficiente para não dirigir a cena. Era permitir que alguém me conduzisse sem que isso me tornasse menor.

 

Talvez pouca gente entenda isso. A mulher forte, muitas vezes, não quer um homem fraco disputando poder com ela. Também não quer um homem violento tentando vencê-la. Quer alguém com firmeza suficiente para que ela possa, enfim, não precisar provar nada.

 

Com ele, eu não provava... Eu sentia.

E sentir, para mim, já era uma espécie de escândalo.

 

Depois eu fui embora de Vitória.

A vida fez o que sempre faz. Mudou o cenário, abriu estrada, empurrou trabalho, cidade, responsabilidade, outras rotas. Morei em outros lugares. Fui sendo outras mulheres em outros estados. A mulher que desembarcou em Vitória ficou para trás, ou pelo menos foi isso que tentei acreditar.

 

Mas ele continuou... Não como presença fixa.

Não como relação definida... Não como história com nome bonito... Continuou como fio.

 

O WhatsApp tem dessas coisas. Parece só aplicativo, mas às vezes vira ponte entre corpos que a geografia tentou separar. Uma mensagem aqui, outra ali. Um áudio. Uma lembrança. Um assunto comum. Uma conversa que começa banal e, quando a gente percebe, já abriu um quarto antigo dentro da memória.

 

Durante anos, ele ficou assim.

Nem perto.

Nem fora.

 

Um ponto aceso em algum lugar do mapa.

E eu segui.

Conheci outros homens.

 

Alguns bonitos.

Alguns inteligentes.

Alguns disponíveis.

Alguns confusos, claro, porque parece que a vida não deixa a gente perder o hábito de estudar caso clínico afetivo.

Alguns me tocaram.

Alguns me interessaram.

Alguns quase.

Alguns nem isso.

 

Mas havia uma comparação silenciosa.

Injusta, talvez. Eu procurava alguma coisa que não sabia nomear.

 

Não era só sexo. Se fosse só sexo, seria mais fácil. O mundo está cheio de corpo querendo corpo. O difícil é encontrar corpo que conversa com uma parte específica da gente, aquela que não aparece em qualquer cama.

 

Eu buscava aquela entrega..

.Aquela perda de comando.

 

Aquela sensação de que minha força podia deitar ao lado, cansada, enquanto outra coisa em mim assumia.

 

E eu não encontrava... Isso me irritava.

 

Porque transformar alguém em referência é perigoso... A pessoa vira régua.

 

E, quando alguém vira régua, todo o resto começa a parecer torto. Eu não sei se ele merecia esse lugar.

 

Talvez não. Talvez ninguém mereça ser transformado em medida daquilo que a gente sente falta em si mesma.

 

Porque, sendo honesta, talvez eu não buscasse exatamente ele nos outros.

 

Talvez eu buscasse a mulher que aparecia quando ele estava perto.

 

A mulher que não precisava explicar tanto.

A mulher que não precisava liderar nada.

A mulher que deixava o corpo falar sem pedir autorização para a cabeça.

A mulher que aceitava ser conduzida porque não se sentia diminuída por isso.

A mulher que podia ser intensa sem virar problema.

A mulher que podia desejar sem se desculpar.

 

Essa mulher me faz falta.

 

E talvez seja por isso que ele tenha permanecido.

 

Não apenas por ele.

 

Mas por ela.

 

Agora, anos depois, o contato voltou a ganhar corpo.

 

A vida tem esse humor.

 

Quando a gente acha que certas histórias estão arquivadas, elas reaparecem com cara de mensagem comum. Um assunto qualquer. Uma conversa sobre o dia. Uma lembrança atravessada. Uma intimidade antiga voltando por dentro da linguagem, como se nunca tivesse ido embora totalmente.

 

E eu me pego falando com ele de um jeito que não falo com muitos.

 

Falamos sobre tudo.

 

E isso muda a história.

 

Porque, se fosse só corpo, talvez eu já tivesse resolvido melhor dentro de mim. O corpo lembra, tudo bem. O corpo exagera, tudo bem. O corpo tem seus arquivos confidenciais.

 

Mas quando, além do corpo, existe conversa, a coisa complica.

 

Conversa é o que torna o desejo habitável.

 

E talvez seja por isso que ele ocupe um lugar tão difícil de substituir.

 

Não porque seja perfeito. Não é. Ninguém é. E eu já vivi o suficiente para desconfiar de qualquer lembrança que pareça perfeita demais. A memória tem uma equipe de edição muito desonesta. Corta a parte ruim, melhora a luz, aumenta a temperatura, coloca trilha sonora e depois entrega para a saudade como se fosse documentário.

 

Eu sei disso.

 

Ainda assim, há algo.

 

Algo que não desapareceu com o tempo.

 

Algo que atravessou cidades, mudanças, silêncios, outros homens, outras camas, outras versões minhas.

 

E eu preciso olhar para isso com cuidado.

 

Porque há beleza, mas há risco.

 

A beleza está na permanência do fio. Na química que sobreviveu ao calendário. Na intimidade que não se perdeu completamente. Na sensação rara de ser desejada e compreendida por alguém que conheceu uma parte muito física e muito secreta de mim.

 

O risco está na idealização.

 

Está em transformar uma história intensa numa espécie de altar. Está em procurar nos outros uma cópia de uma experiência que talvez só tenha acontecido daquele jeito porque era aquele tempo, aquela cidade, aquela idade emocional, aquela madrugada, aquela mulher que eu era.

 

A gente precisa respeitar o passado sem deixar que ele sequestre o presente.

 

E eu não quero fazer dele uma prisão bonita.

 

Quero fazer literatura.

 

Talvez seja a forma mais honesta de cuidar dessa memória.

 

Não expor o homem.

Não transformar o corpo em espetáculo.

Não contar detalhes como quem entrega prova.

 

Mas escrever a verdade emocional do que aconteceu.

 

A verdade é que ele me marcou.

 

Não como ferida.

 

Como arquivo.

 

Um arquivo quente.

 

Daqueles que a gente não abre todo dia, mas sabe que existe. Está lá. Protegido por senha, cheiro, cidade, madrugada, pele e uma versão de mim que talvez eu ainda esteja tentando reencontrar.

 

Às vezes acho que ele me ensinou uma coisa que nenhum discurso conseguiria ensinar: minha força não desaparece quando eu me entrego.

 

Eu achava que sim.

 

Achava que perder o controle era perder poder.

 

Com ele, descobri que, em alguns contextos, perder o controle pode ser escolha. Pode ser liberdade. Pode ser descanso. Pode ser uma mulher dizendo ao próprio corpo: hoje tu não precisa se defender de tudo.

 

Isso é raro.

 

E talvez por isso eu busque em outros homens algo que não encontro.

 

Não quero só alguém que me deseje.

 

Desejo aparece.

 

Quero alguém diante de quem eu não precise comandar a cena inteira para me sentir segura.

 

Quero alguém que tenha presença suficiente para que eu possa baixar a guarda sem sentir que virei presa.

 

Quero firmeza sem violência.

 

Domínio sem apagamento.

 

Desejo sem consumo.

 

Conversa sem pobreza.

 

Corpo sem depois vazio.

 

Olha a exigência.

 

Mas depois de sentir certas coisas, fica difícil fingir que qualquer toque serve.

 

Não serve.

 

O corpo fica educado pelo excesso.

 

Ou mal acostumado, talvez.

 

Ainda não decidi.

 

O que sei é que há homens que passam pela vida da gente e há homens que ficam arquivados no sistema nervoso. Eles não precisam estar presentes todos os dias. Não precisam ter título. Não precisam caber numa definição comum.

 

Eles ficam.

Como uma cidade onde a gente foi outra... Como uma noite que não terminou completamente. Como uma senha que o corpo ainda reconhece. Ele foi isso para mim...Talvez ainda seja.

 

Não sei se como promessa.

Não sei se como futuro.

Não sei se como perigo.

Não sei se como saudade.

Não sei se como referência injusta.

 

Mas como história, sim.

Como história, ele é forte.

 

E talvez, no fim, seja isso que eu possa fazer com tudo que não sei resolver: transformar em crônica.

 

Não para diminuir o que vivi.

Mas para dar forma.

 

Porque algumas experiências não cabem em relacionamento, não cabem em explicação, não cabem em moral da história.

 

Cabem em texto. E, se um dia alguém me perguntar por que certos homens não me bastam, talvez eu não saiba responder direito.

 

Talvez eu só pense em Vitória.

Naquela primeira noite.

Na mulher que eu fui.

Na força que eu larguei por algumas horas no canto do quarto... E na estranha paz de não precisar mandar em nada.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/05/2026
Alterado em 24/05/2026
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