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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Eu não quero competir com a onfusão de ninguém

Demorei para dizer isso com essa clareza, porque durante muito tempo eu achei que maturidade era saber entender o caos dos outros. Eu confundia compreensão com permanência. Achava bonito ser a mulher que tinha paciência, repertório, inteligência emocional, profundidade, escuta, peito e coluna para suportar a bagunça alheia sem sair correndo.

 

Hoje eu vejo que, em muitos casos, eu não estava sendo madura... estava apenas me colocando numa disputa humilhante com coisas que nunca deveriam ter sido minhas adversárias.

 

Eu competia com o medo dele.

Competia com a ex mal resolvida.

Competia com a falta de coragem.

Competia com o ego.

Competia com o trauma, com a conveniência, com a covardia, com a preguiça afetiva, com o silêncio, com a instabilidade, com a fase ruim, com a vida atribulada, com o “não sei o que quero”, com o “gosto muito de vc, mas...”.

 

Esse “mas” já destruiu mais mulheres do que muita despedida honesta. Porque a despedida, quando vem limpa, dói... mas organiza. O “mas” não. O “mas” deixa a porta entreaberta. Deixa o corpo em alerta. Deixa a mulher tentando entender se deve ficar, se deve esperar, se deve interpretar, se deve acreditar, se deve ser mais paciente, mais leve, mais sensual, mais madura, menos intensa, mais calma, menos crítica, mais disponível, menos verdadeira.

 

O “mas” é uma sala de espera mal iluminada. E eu fiquei sentada tempo demais em algumas. A verdade é que existe uma violência silenciosa em gostar de alguém emocionalmente confuso. Não porque a pessoa seja um monstro. Nem sempre é. Às vezes é só alguém quebrado, perdido, medroso, mal resolvido, imaturo, dividido, frouxo. O problema é que, quando a gente gosta, começa a dar nomes bonitos demais para defeitos que, vistos de fora, são bem simples.

 

Ele não é complexo... ele é inconsistente.

Ele não é profundo... ele é mal resolvido.

Ele não está em conflito existencial... ele só não sabe sustentar o que começou.

Ele não tem medo de sentir... ele tem medo de se responsabilizar pelo que sente.

 

E quem paga a conta dessa confusão quase nunca é quem a carrega. É quem tenta amá-lo.

 

Isso me irrita profundamente. Porque tem uma glamurização ridícula da confusão masculina. O homem indeciso vira um ser misterioso. O emocionalmente truncado vira profundo. O que não consegue se posicionar vira complexo. O que não escolhe ninguém vira alguém que “está vivendo o processo dele”. Enquanto isso, a mulher que se fere tentando entender recebe o rótulo de ansiosa, intensa, exigente, complicada, apressada.

 

Olha a perversidade da coisa.

O homem espalha os cacos... e a mulher ainda precisa parecer elegante ao pisar neles.

Eu não quero mais. Não quero disputar espaço dentro de ninguém. Não quero ser a mulher incrível que, com o tempo, com a doçura certa, com a escuta certa, com o sexo certo, com a frase certa, vai conseguir organizar o labirinto emocional de um homem que já chegou perdido.

 

Isso não é amor. Isso é terceirização de manutenção interna.

E eu cansei de receber chamado para obra que nem fui eu quem iniciou.

 

Tem homem que entra na nossa vida como se estivesse oferecendo presença, mas na verdade está só procurando uma mulher confortável o suficiente para amortecer a própria bagunça. Ele gosta da escuta, gosta da inteligência, gosta do colo, gosta do corpo, gosta da conversa, gosta da admiração, gosta da leveza que encontra... mas não o bastante para bancar a permanência. Quer a experiência de ser amado sem ter que enfrentar o trabalho de amar de volta com consequência.

 

Aí ele diz que está confuso. Claro que está... Confusão é um lugar ótimo para quem quer manter benefício sem decisão. Quem está confuso demais para escolher, geralmente não está confuso demais para receber. Recebe teu tempo, tua atenção, tua delicadeza, tua maturidade, tua nudez, teu cheiro, teu texto bonito, tua escuta às onze da noite. Recebe tudo. Só não entrega a única coisa que dignifica o afeto... clareza.

 

É impressionante como a confusão raramente impede um homem de acessar o melhor de uma mulher. Ela só impede que ele a trate com a nitidez que ela merece. E eu não quero mais ser boa demais para alguém que continua nebuloso por escolha, hábito ou covardia. Porque, depois de um tempo, a gente precisa parar de chamar de dor o que já é padrão.

 

Tem gente que gosta mesmo é de viver entreaberta. Nem entra, nem sai. Nem assume, nem solta. Nem ama, nem vai embora. Fica orbitando. Diz saudade, depois some. Diz carinho, depois esfria. Diz que pensa em vc, depois desaparece no próprio labirinto como se a outra pessoa não tivesse sistema nervoso.

 

No começo, isso mexe com a gente. Depois cansa. Depois humilha. Depois esclarece. Hoje eu sei que não existe nada mais cansativo do que ser mulher lúcida diante de um homem confuso. Porque a mulher lúcida vê. Vê o jogo, vê a hesitação, vê a incoerência, vê a pobreza emocional da situação. Mas, se estiver envolvida, ainda assim sente. E sentir o que a inteligência já reprovou é um dos esportes mais ingratos da vida adulta.

 

Eu já me peguei tentando competir com a indecisão de alguém como se, em algum momento, eu pudesse vencer no cansaço. Como se bastasse eu ser mais interessante, mais bonita, mais presente, mais paciente, mais inteligente, mais viva, mais gentil... e pronto, finalmente ele veria.

 

Mas ver o quê, exatamente?

Mulher nenhuma deveria precisar montar uma apresentação de si para convencer alguém a sair da própria névoa.

Se a pessoa precisa que eu me esforce demais para ser escolhida, então ela já está me oferecendo menos do que eu mereço.

 

Eu não quero competir com a confusão de ninguém porque eu sei o preço disso. O preço é começar a duvidar da própria nitidez. O preço é aceitar migalha de clareza como se fosse avanço. O preço é comemorar o mínimo. O preço é chamar de conexão algo que, na prática, funciona como intermitência. O preço é se tornar especialista em justificar incoerência. O preço é dormir com a sensação de que, se eu tivesse falado diferente, esperado mais, pressionado menos, compreendido melhor, talvez desse certo.

 

Talvez... Essa palavra também já fez muito estrago.

Talvez ele esteja passando por uma fase.

Talvez ele tenha medo.

Talvez ele goste e não saiba demonstrar.

Talvez precise de tempo.

Talvez eu esteja sendo dura.

Talvez eu devesse ser mais leve.

Talvez ele volte melhor.

Talvez.

A mulher vai vivendo de talvez...

Enquanto a realidade inteira já está pronta, berrando, diante dela.

 

A realidade, quase sempre, é muito menos sofisticada do que a nossa esperança. A realidade é que quem quer construir alguma coisa não se esconde tanto atrás da própria confusão. Pode até ter medo, pode até ter história, pode até ter limitações... mas comparece. Se posiciona. Não deixa a outra pessoa mendigando interpretação.

 

Porque sentimento sem posicionamento vira tortura de baixa intensidade. Não mata de uma vez... vai desgastando.

E eu não estou mais interessada em desgastes lentos. Chega uma hora em que a paz da gente começa a ficar mais bonita do que qualquer promessa mal acabada. A gente percebe que não adianta o homem beijar bem, escrever bem, olhar fundo, fazer rir, ter história, ter dor, ter intensidade, ter profundidade, se no fim ele continua emocionalmente estacionado num lugar onde a outra mulher precisa disputar espaço com fantasmas, exs, medos, fases, silêncios e indecisões.

 

Eu não sou candidata à vaga em coração ocupado por ruído. Se a vida dele está um canteiro de obra, lamento... mas não vou mais entrar sem escopo, sem prazo, sem estrutura e sem garantia mínima de segurança emocional.

 

Isso não é frieza. É dignidade.

 

Aliás, a maturidade mais bonita que uma mulher pode alcançar talvez seja essa... parar de se sentir cruel por escolher a própria paz. Porque por muito tempo ensinaram para nós que o amor verdadeiro era paciente, compreensivo, perseverante, quase missionário. Como se desistir de uma situação confusa fosse prova de superficialidade. Como se a mulher boa fosse a que aguenta. A que entende. A que espera. A que cura. A que fica enquanto o outro decide se consegue existir direito.

 

Não. A mulher boa não é a que se abandona com delicadeza.

A mulher boa, primeiro, precisa ser boa consigo.

 

Eu não quero competir com a confusão de ninguém porque também já tenho minhas próprias desordens para organizar. Tenho meus medos, meus excessos, minhas oscilações, minha profundidade às vezes cansativa, meu corpo desejante, minha cabeça analítica, minha solidão bem vestida, meu orgulho salvador, minhas recaídas emocionais, minhas vontades inadequadas. Já basta administrar meu próprio território. Não vou mais me candidatar à administração daquilo que o outro nem sequer decidiu limpar.

 

Se alguém quiser chegar perto de mim, que chegue com a bagunça humana normal que todos temos... mas com alguma honestidade. Com alguma coragem. Com alguma intenção de não transformar a minha paz em área de teste.

 

Porque eu não sou laboratório afetivo para homem em fase experimental.

 

Quero uma coisa simples, embora pareça artigo de luxo hoje em dia... nitidez. Não perfeição. Nitidez. Um homem que saiba o que faz com a saudade que sente. Um homem que entenda que desejar alguém sem cuidar do impacto disso é só mais uma forma moderna de egoísmo. Um homem que não precise que eu concorra com a névoa dentro dele para conquistar um lugar que deveria ser oferecido com inteireza ou não ser oferecido.

 

Tem gente que chama isso de exigência. Eu chamo de higiene emocional.

 

E talvez seja exatamente isso que muda tudo depois de um tempo. A gente para de perguntar “será que ele gosta de mim?” e começa a perguntar “é saudável para mim ocupar esse lugar?”. A pergunta muda de eixo. Sai da validação e entra na lucidez. Sai do ego ferido e entra no cuidado real. Sai do “como faço para ele me escolher?” e entra no “por que eu ainda estou tentando caber nessa desorganização?”.

 

Essa mudança salva. Dói, claro. Porque às vezes a gente gosta. Gosta mesmo. Gosta do riso, do corpo, da conversa, da sensação, da promessa, do quase, da eletricidade. Mas gostar não obriga permanência. Desejar não obriga tolerância. Sentir não obriga submissão à confusão alheia.

 

Eu posso gostar muito... e ainda assim ir embora.

Isso é uma das coisas mais adultas que aprendi.

 

Ir embora não porque deixei de sentir, mas porque comecei a me respeitar mais do que respeitava a esperança. Ir embora porque percebi que, se eu continuar ali, minha paz vai começar a disputar espaço com um caos que não é meu. E eu já sei o final dessa história. A confusão nunca perde. Quem perde é a mulher que tenta vencê-la no afeto.

 

Por isso, hoje, eu digo com uma serenidade que me custou caro:

eu não quero competir com a confusão de ninguém.

 

Não com ex, não com medo, não com trauma, não com ego, não com covardia, não com fase, não com indecisão, não com a incapacidade de se posicionar. Se para estar comigo alguém precisa primeiro fazer uma longa assembleia interna... então que faça. Longe.

 

Eu estarei ocupada demais cuidando da minha paz, da minha vida, do meu corpo, do meu texto, do meu café, do meu trabalho, dos meus desejos e da mulher que demorei tanto para me tornar.

 

Quem vier, venha inteiro o suficiente para não me obrigar a dividir lugar com ruído.

Porque eu já fui paciente demais com labirintos.

 

Hoje, sinceramente...

eu prefiro portas.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/05/2026
Alterado em 24/05/2026
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