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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Quando o Desejo Encontra um Lugar Antigo em Nós

Existe uma violência silenciosa em encontrar alguém que parece ter saído exatamente do lugar onde a gente escondia os próprios desejos.

 

Porque até então eu estava bem. Ou pelo menos funcional. Que é diferente de estar bem. Existe uma fase da vida em que a gente aprende a transformar sobrevivência em personalidade. A mulher vira trabalho, vira meta, vira estrada, vira relatório, vira gestão de crise, vira resolução prática de tudo. E sem perceber… começa a chamar isso de maturidade.

 

Até que aparece um homem barbudo.

 

E honestamente? Que humilhação emocional.

 

Porque não era para mexer tanto comigo. Não era para eu estar pensando nisso num domingo à noite. Não era para um homem de trinta e quatro anos desmontar uma mulher de quarenta e sete que já viveu tanta coisa. Mas desmontou.

 

E talvez o pior seja justamente isso: ele parecia verdade.

 

Não bonito de Instagram. Não personagem de aplicativo. Verdade.

 

O jeito de mexer no cabelo. O sorriso meio cansado. A barba cheia. O olhar de homem que já viu o mundo, mas ainda consegue olhar alguém com calma. O jeito atrapalhado tentando compreender meu português rápido demais. A educação. A gentileza. A masculinidade tranquila. Tudo nele parecia perigosamente próximo daquilo que eu passei anos dizendo para mim mesma que não existia.

 

Ou que não existia para mim.

 

Porque chega uma idade em que a gente começa a fazer acordos silenciosos com a vida. A gente para de esperar certas coisas. Para de acreditar em conexão intensa. Para de imaginar reciprocidade. Para de imaginar encantamento. E principalmente… para de imaginar que ainda pode perder o chão por alguém.

 

Até perder.

 

E agora existe esse sufocamento ridículo dentro de mim. Ridículo porque racionalmente eu sei de tudo. Sei que ele é estrangeiro. Sei que ele veio de um aplicativo onde dizia claramente que queria algo casual. Sei que homens bonitos e livres provavelmente vivem rodeados de possibilidades. Sei que talvez eu seja só mais uma memória bonita de Belém para ele.

 

Mas o corpo não quer saber da lógica.

 

O corpo reconheceu alguma coisa nele.

 

E isso me irrita profundamente.

 

Porque eu estava acostumada ao contrário. Acostumada a receber pessoas. Acostumada ao controle emocional da situação. Acostumada a ir embora primeiro por dentro. Só que dessa vez eu me vi olhando para um homem como quem encontra um lugar que procurou a vida inteira sem admitir.

 

E talvez seja isso que esteja me sufocando: não o medo de perdê-lo…

 

Mas o medo de ter encontrado exatamente aquilo que eu sempre quis quando já não sei mais como desejar sem me destruir um pouco no processo.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 17/05/2026
Alterado em 17/05/2026


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