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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Funcionais: Funciona, mas dói!

 

Para Y,

 

Há pessoas que não chegam na nossa vida fazendo barulho. Elas chegam como quem já atravessou incêndios demais para ainda acreditar em apresentações bonitas. Chegam com humor, inteligência, ironia, uma certa arrogância defensiva e uma lucidez que, às vezes, assusta mais do que qualquer silêncio.

 

E a gente percebe, quase sem querer, que existe ali uma pessoa importante.

 

Não importante pelo que promete. Nem pelo que entrega. Mas pelo que revela quando baixa um pouco a guarda.

 

Existem pessoas que aprenderam cedo demais a sobreviver. Criaram sistemas internos para continuar funcionando, para não se perderem completamente, para não se destruírem, para não entregarem ao mundo o direito de dizer que venceram sobre elas. E, de fora, isso pode parecer força. Pode parecer autonomia. Pode até parecer charme. Mas, olhando de perto, a gente percebe que algumas estruturas permanecem de pé não porque estão inteiras… mas porque foram obrigadas a sustentar peso por tempo demais.

 

Foi isso que me tocou.

 

Essa capacidade estranha de funcionar apesar da dor. De rir enquanto sangra por dentro. De dizer coisas profundas como quem comenta o clima. De transformar o próprio caos em linguagem, em humor, em pensamento, em sobrevivência.

 

Há quem ache bonito esse tipo de intensidade. Eu também acho, confesso. Mas não de forma romântica e irresponsável. Acho bonito porque reconheço o esforço. Porque sei que, por trás de certas frases irônicas, existe uma infância inteira tentando não ser esmagada. Existe uma mente cansada tentando organizar o mundo antes que o mundo a destrua. Existe alguém que aprendeu a controlar tudo porque, em algum momento, sentir medo parecia perigoso demais.

 

E talvez seja isso que mais doa de enxergar em alguém importante: perceber que a pessoa não está perdida por falta de inteligência. Pelo contrário. Às vezes ela entende tudo. Entende os próprios mecanismos, os próprios excessos, as próprias fugas, os próprios abismos. Só que entender não é o mesmo que descansar. Ter consciência não é o mesmo que estar em paz.

 

Algumas pessoas sabem explicar a própria ferida com uma precisão quase cruel… mas ainda não sabem morar confortavelmente dentro da própria pele.

 

E diante disso, a vontade que dá é absurda. Dá vontade de colocar no colo, de proteger, de dizer que a vida não precisava ter sido tão dura, de pedir desculpas por dores que a gente nem causou. Mas também existe um limite honesto: ninguém salva ninguém pela força do afeto. O máximo que a gente consegue fazer é olhar sem reduzir, acolher sem aprisionar, permanecer sem se abandonar.

 

Talvez amar alguém assim, mesmo que em silêncio, mesmo que de um jeito torto, seja compreender essa contradição: admirar o sistema que manteve a pessoa viva, mas desejar que um dia ela não precise mais viver em estado de emergência.

 

Porque funcionar é importante.

 

Mas ficar bem… ficar bem de verdade… deveria ser possível também.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/05/2026


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