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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


🧠💭

Léo,

 

Talvez eu esteja escrevendo isso mais para organizar meus próprios pensamentos do que esperando alguma resposta tua.

 

Em dois dias, nós conversamos de um jeito que normalmente leva meses para acontecer. E talvez tenha sido isso que me deixou tão silenciosa depois. Porque, sinceramente, eu estava torcendo para que não existisse química entre nós. Torcendo para que alguma coisa não encaixasse. O cheiro. O toque. O beijo. A conversa. O abraço. Qualquer detalhe que me ajudasse a manter tudo apenas no campo da curiosidade.

 

Mas não aconteceu assim.

 

Eu ainda lembro da sensação de te ver entrando e caminhando na direção da mesa. Lembro do abraço que te dei quando te vi pela primeira vez. E lembro de pensar, quase instantaneamente, que existia alguma coisa muito calma e muito perigosa na tua presença.

 

Você mexendo no cabelo enquanto tentava entender meu português rápido demais… teu jeito paciente de perguntar novamente quando não compreendia alguma palavra… teu sorriso meio tímido às vezes… tua forma gentil de olhar… tudo isso foi ficando mais presente do que eu gostaria.

 

E talvez essa tenha sido a parte mais difícil.

 

Porque minha curiosidade inicial não era apenas sobre desejo. Era quase uma investigação emocional. Eu queria descobrir se aquilo que eu via nas conversas era real ou só mais uma versão bonita criada entre telas, tradução, distância e carência moderna. Hoje as pessoas performam muito. Seduzem muito. Criam personagens muito rápidos.

 

Mas contigo eu senti presença.

 

E isso mexeu comigo mais do que deveria.

 

Talvez porque eu consiga perceber o quanto você carrega vida dentro da tua história. Trabalhando desde muito novo. Rodando o mundo. Conhecendo países, pessoas, culturas, aeroportos, hotéis, idiomas diferentes. Existe uma liberdade bonita nisso… mas também uma solidão silenciosa que eu acho que reconheci em você porque ela também existe em mim.

 

Não igual. Mas próxima.

 

Eu também escolhi a vida do trecho de certa forma. Escolhi projetos, mudanças, trabalho, movimento, aeroportos emocionais. E no meio disso tudo, a gente aprende a gostar da própria companhia. Aprende a sobreviver sozinho. Aprende a ir embora antes de criar raiz demais.

 

Talvez por isso eu tenha ficado pensativa depois.

 

Porque quando não existe química, tudo fica simples. O corpo entende rápido. A mente organiza rápido. Mas quando existe… quando o beijo encaixa, quando o cheiro acalma, quando o sexo é bom e quando a conversa continua bonita mesmo depois… aí nasce um problema delicado.

 

A possibilidade.

 

E possibilidades assustam mais na vida adulta do que assustavam antes.

 

No alto dos teus 34 anos, você ainda tem muito mundo pela frente. E eu acho bonito isso em você. Bonito de verdade. Existe gentileza no teu jeito. Existe cuidado. Existe educação emocional em pequenas coisas que talvez você nem perceba.

 

E eu não sei ainda o que fazer com tudo isso.

 

Porque eu gosto intensamente das pessoas quando gosto. Muito. E talvez o tempo já não funcione mais da mesma forma dentro de mim. Talvez hoje eu entenda que certas conexões chegam justamente para mostrar que ainda existe sensibilidade viva… mesmo em pessoas cansadas.

 

Talvez você nunca imagine o quanto mexeu comigo em tão pouco tempo.

 

Mas mexeu.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 15/05/2026
Alterado em 17/05/2026


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