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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Tem filho que aprendeu cedo a pedir… Pedia ajuda… pedia socorro… pedia presença. E sempre tinha alguém ali… a mãe… as irmãs… sustentando, acolhendo, resolvendo.


Era sempre urgente quando era pra ele. Mas quando a urgência mudou de lado…

 

Quando era a mãe que precisava… quando o corpo começou a falhar… quando o cuidado deixou de ser escolha e virou responsabilidade…A lógica também mudou, nada mais era natural ou espontâneo ou por amor. Até o gesto mais simples… precisava de pagamento.


Como levar a própria mãe ao médico… tinha preço!? Como se o vínculo fosse contrato, como se o cuidado fosse serviço.

 

E, pouco a pouco… Foi recebendo, dinheiro... Ajuda e até apoio! Mas tudo em troca de algo que nunca deveria ter sido cobrado!

 

A casa… aquela mesma casa… Foi construída com esforço dos pais e de alguns irmãos e foi sendo mantida por quem sustentou! Foi sendo cuidada por quem permaneceu... 

 

E alguns foram apenas passando pela casa… Retirando um pouco aqui… um pouco ali… sempre que precisava… sempre que pedia… E sempre tinha quem desse.

 

Mas agora… Agora que não há mais mãe! não há mais rotina…não há mais cuidado pra negociar… E no oitavo dia de falecimento da propria mãe... E ele aparece de novo! Mas não pedindo, exigindo!!

 

Exigindo parte de algo que nunca tratou como responsabilidade… exigindo direito sobre um lugar que sempre acessou por conveniência… exigindo espaço numa história que nunca quis sustentar.

 

E é aí que tudo se revela! Porque não é sobre a casa… Nunca foi!

É sobre a forma como cada um se relacionou com ela, o que ela representava de verdade quando existia ali alguem que viveu até o fim e ofertava o minino de financeiro quando precisava... Afinal, há quem ajudou a construir… quem ajudou a manter e entra o lugar de quem foi sendo sustentado por ela, com uma capa fina de sentimento que aquilo era um tipo de ajuga pagando para sustentar a necessidade de levar, trazer, esperar em consultas médicas, exames e pequenos afazeres.
 

No fim…

A conta não fecha em papel! Ela fecha na memória... E memória, não aceita cobrança de quem só apareceu quando já não havia mais nada para cuidar.

 

Há irmãos da vida muito mais consanguineos que os consanguineos de pai e de mãe.

E isso é doloroso sim! mais precisa ser dito.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 02/04/2026
Alterado em 02/04/2026
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