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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Y.

 

Tem gente que passa pela vida tentando caber nas coisas.

Você não.

 

Você parece caminhar como quem abre passagem no mato. Às vezes com cuidado, às vezes meio no impulso, mas sempre com essa recusa bonita de seguir uma trilha que já esteja pronta.

 

Quando olho para o que você cria, não vejo só um projeto. Vejo uma espécie de espelho da sua inquietação. Aquela inquietação de quem não consegue fingir que está tudo resolvido quando não está. De quem prefere continuar procurando, mesmo quando procurar cansa.

 

Seu trabalho me lembra fotografia em preto e branco. Não pela estética apenas, mas pelo silêncio que existe ali. No preto e branco não tem distração. Não tem cor para esconder nada. Fica só a luz e a sombra se encontrando.

 

E você parece viver exatamente nesse encontro.

 

Há em você uma força que se aproxima do desejo mais cru, quase subterrâneo, esse lugar onde a vida pulsa sem pedir permissão. Mas também existe outra coisa, mais calma, quase delicada… uma possibilidade de amor simples, sem barulho.

 

Entre esses dois mundos você anda.

 

Às vezes avançando.

Às vezes tropeçando.

Às vezes só olhando o horizonte como quem decide se continua ou se volta.

 

Talvez o que mais me toque em você seja essa coragem de continuar mesmo sem garantia nenhuma. Criar sem saber se alguém vai entender. Apostar numa ideia sem ter certeza de que ela vai sobreviver ao mundo.

 

Isso é raro.

 

A maioria das pessoas aprende cedo a se proteger demais. A domesticar os próprios impulsos. A escolher sempre o caminho menos arriscado.

 

Você não parece feito dessa matéria.

 

Existe em você algo indomado, e digo isso com respeito, não como crítica. Porque são justamente as pessoas um pouco indomadas que ainda conseguem produzir beleza de verdade.

 

E eu olho para você com uma mistura tranquila de admiração e ternura. Como alguém que reconhece um espírito livre atravessando o próprio caminho, ainda que esse caminho às vezes seja confuso.

 

Algumas pessoas buscam estabilidade... Outras, sentido!

Você parece pertencer à segunda espécie.

 

E talvez por isso seu trabalho tenha essa força estranha de quem ainda acredita que vale a pena revelar o mundo, como um velho filme sendo mergulhado no químico escuro até que, devagar, uma imagem comece a aparecer.

 

Eu gosto de ver isso acontecer... Gosto de ver você acontecer!

 

 

Amo-te...

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 07/03/2026
Alterado em 17/03/2026
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