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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Desejo.

 

Quando fingimos que certos desejos não existem, não é o desejo que desaparece, é a coragem que se retrai. Ele se instala em nós de maneira discreta, como quem aceita morar num quarto sem janela, e passa a respirar no escuro.

 

A gente aprende cedo a organizar o que sente, a separar o que pode ser dito do que deve ser enterrado, como se o coração fosse um arquivo confidencial. Só que aquilo que é trancado não deixa de pulsar. Ele muda de forma. Vira tensão no maxilar, julgamento severo do outro, rigidez no discurso, noites longas demais.

 

Chamamos de maturidade aquilo que muitas vezes é medo de sermos vistos por inteiro. Chamamos de ética o que às vezes é pavor de perder pertencimento. E assim vamos ajustando o rosto para caber no retrato social, enquanto o desejo, silencioso, se transforma em sintoma. Não porque desejar seja doença, mas porque negar é fratura. A fratura não aparece na superfície de imediato, ela vai abrindo pequenas rachaduras na forma como tocamos, como amamos, como falamos sobre o que é “normal”.

 

Há uma violência suave em viver dividido. Não é dramática, não é cinematográfica, é cotidiana. Está no riso que disfarça, na opinião dura demais, na necessidade de apontar o erro alheio com precisão cirúrgica.

 

Projetamos no mundo aquilo que não suportamos reconhecer em nós. O escândalo público quase sempre nasce de um conflito privado.

 

Talvez o problema nunca tenha sido o desejo. Talvez tenha sido o medo de nomeá-lo. Porque nomear não é ceder, é assumir que somos feitos de matéria contraditória.

 

E quando paramos de fingir que não sentimos, algo se reorganiza por dentro. Não ficamos mais puros, ficamos mais inteiros...

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/02/2026
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