google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0

... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Mulheres e suas sombras/ Poética da Fricção Linear

I

O corpo não nasce.

É convocado.

Chamado por nomes que não escolheu.

Empurrado para dentro de um lugar

onde existir já é dívida.

A sombra surge antes da consciência.

Ela não protege.

Ela mede.

 

II

O corpo aprende o limite

pela repetição.

Não toque.

Não avance.

Não exceda.

A sombra registra tudo.

Ela é arquivo.

Ela é regra incorporada.

Pensar dói.

Pensar demais dói mais.

 

III

O desejo aparece como erro.

Não porque seja excessivo,

mas porque é autônomo.

A sombra inclina o corpo

para fora de si.

Aqui, o prazer já nasce culpado.

E a culpa começa a organizar o mundo.

 

IV

A outra mulher surge.

Não como espelho,

mas como ameaça.

A sombra reconhece nela

o que foi proibido em si.

A fricção se desloca.

O conflito muda de alvo.

O centro permanece intacto.

 

V

Há contato.

Não encontro.

Não fusão.

Choque.

Carne contra carne

como tentativa de restituição.

O gesto não resolve.

Apenas confirma

que o sistema exige sacrifício.

 

VI

Uma cai.

A queda não interrompe nada.

A ordem respira aliviada.

A sombra observa

o corpo no chão

com estranha familiaridade.

Já sabia.

 

VII

O silêncio começa aqui.

Não como ausência de som,

mas como excesso de sentido.

O corpo ferido fala

sem linguagem.

A sombra treme.

Não por culpa.

Por reconhecimento.

 

VIII

Algo se rompe.

Não o sistema.

A mulher.

A fricção vira interior.

Sem espetáculo.

Sem plateia.

Pensar torna-se perigoso

de novo.

 

IX

A sombra deixa de comandar.

Não é expulsa.

Não é purificada.

É incorporada.

O corpo sustenta o próprio peso

sem promessa de salvação.

 

X

Ela segue.

Não inteira.

Nunca inteira.

Mas consciente do risco

de existir fora da economia do desejo alheio.

A sombra caminha junto.

Agora visível.

Agora impotente.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/12/2025
Alterado em 29/09/2026
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras