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"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A Última Mulher em Pé - Quando a guerra pelo homem nos distrai da guerra pelo nosso próprio destino

Matéria da agressão

Sobre o caso da professora agredida em Tefé… e o destino recorrente de Ofélia

 

1. O espelho quebrado: a violência que se repete

 

Na última quarta-feira, 24, em Tefé, no Amazonas, uma professora caminhava para ajudar nos preparativos da ceia de Natal. Não chegou. Foi derrubada, espancada, humilhada em via pública. A agressora gritava, entre golpes, que aquilo era uma lição por “se meter com homem casado”.

 

O vídeo correu o país. A indignação também. Mas o que muitos chamaram apenas de “caso de ciúmes” é, na verdade, um roteiro antigo… muito antigo. A mulher que agride outra mulher enquanto o homem — centro do conflito — permanece invisível, intacto, ausente de qualquer exposição pública.

 

Na mitologia grega, Hera, rainha dos deuses, jamais enfrentava Zeus. Perseguia as amantes. Punia Io, Leto, as mulheres… e até os filhos nascidos das traições. Zeus seguia soberano. O poder não era questionado. Apenas redistribuía sua violência.

 

O que aconteceu em Tefé não é um desvio. É continuidade histórica. A cena urbana de um mito que nunca foi enterrado.

 

A professora não é a amante mítica… é Ofélia. Um corpo sobre o qual se despejam conflitos que não nasceram ali. Um alvo fácil, porque disponível. Mas a agressora também é Ofélia — aquela que internalizou tão profundamente as regras do jogo que passou a executá-las com as próprias mãos.

 

2. Por que a fúria nunca mira o centro?

 

Simone de Beauvoir já havia nomeado o problema em O Segundo Sexo: a mulher é ensinada a existir em relação. Filha, esposa, mãe… raramente sujeito autônomo. Seu valor é medido pelo olhar masculino que a escolhe, a mantém, a legitima.

 

Quando esse olhar se desloca, a estrutura inteira ameaça ruir. E, nesse colapso, o agressor raramente é quem detém o poder real. A violência se volta contra quem parece mais frágil… mais próxima… mais acessível.

 

bell hooks chamou esse fenômeno de misoginia internalizada — o ódio ao feminino reproduzido pelas próprias mulheres, como resultado direto da socialização patriarcal. Não é desvio moral individual. É aprendizagem estrutural.

 

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024) indicam que a maioria das agressões entre mulheres ocorre em contextos de disputas afetivas envolvendo parceiros homens. Não é coincidência. É padrão.

 

Enquanto brigamos entre nós por migalhas de validação, o sistema segue confortável, sem precisar se defender.

 

3. A economia do afeto: do harém ao algoritmo

 

Durante séculos, mulheres competiram porque não tinham escolha. No harém, na corte, no casamento arranjado… sobreviver dependia do favor masculino. O homem era capital. Afeto era moeda. Atenção era poder.

 

A modernidade prometeu libertação, mas entregou novas vitrines. Stories, status, rótulos de “oficial”, “assumida”, “apresentada à família”. A linguagem mudou. A lógica não.

 

Ainda hoje, muitas mulheres são socializadas para transformar o parceiro em projeto de vida. Enquanto isso, muitos homens seguem estimulados a colecionar vínculos como prova de valor simbólico.

 

A agressão em Tefé não defende apenas um marido. Defende uma identidade inteira.

 

A outra mulher vira bode expiatório. Porque é mais fácil atacá-la do que admitir que todo um modelo de pertencimento foi construído sobre bases frágeis.

 

4. A ruptura necessária: de Hera a Héstia

 

Entre as deusas gregas, Héstia escolheu outro caminho. Recusou disputas por homens. Não quis tronos, nem guerras simbólicas. Cuidou do fogo — não como submissão, mas como centro. O fogo que sustenta a casa, a cidade, a vida comum.

 

Héstia não precisava ser escolhida para existir.

 

Talvez a saída esteja aí. Em abandonar o papel de guardiãs do patriarcado. Em recusar a competição como destino feminino. Em deslocar a pergunta central.

 

Não mais: “com quem ele se envolveu?”

Mas: “por que fui ensinada a acreditar que meu valor depende disso?”

 

Como propõe Judith Butler, é preciso romper com performances de gênero que reiteram a mulher como apêndice do desejo masculino. Ser mulher não pode continuar sendo um campeonato afetivo.

 

5. Que Ofélia seja a última

 

A professora de Tefé sobreviveu. Ofélia não.

 

Que essa diferença importe. Que ela marque uma virada.

 

Este caso não é sobre moral sexual. Não é sobre fidelidade. É sobre violência. E nenhuma mulher merece ser espancada para sustentar um sistema que nunca a protegeu.

 

Enquanto mulheres atacam mulheres, o patriarcado agradece. Não precisa de força… apenas de espelhos quebrados.

 

A revolução começa quando recusamos o papel de Hera. Quando protegemos a desconhecida não porque sabemos toda a história, mas porque sabemos o essencial: violência nunca é resposta.

 

Que a professora de Tefé seja a última Ofélia.

E que nenhuma mulher precise sangrar para que outra se sinta segura.

 

Referências Bibliográficas

 

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2 v. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

 

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

 

HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

 

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

 

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP, 2024.

 

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.

 

VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/12/2025
Alterado em 28/12/2025
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