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Leitura pessoal de O Chicote e o Corpo — pela Poética da Fricção
Não consigo ver ou analisar o filme, O Chicote e o Corpo como um filme sobre sadomasoquismo... Sempre vi como um filme sobre memória que não solta o corpo.
O chicote, ali, não me parece um instrumento de prazer. Ele funciona como uma língua antiga… uma forma de comunicação que só existe porque outras falharam. Não é o objeto que importa, mas o que ele carrega: repetição, culpa, desejo que não encontrou espaço para existir de outro jeito.
O que mais me incomoda — e por isso me interessa — é que o filme não julga. Ele não tenta explicar psicologicamente, nem redimir moralmente. Ele apenas mostra a fricção. Mostra o atrito constante entre amor e dor, desejo e punição, entrega e poder.
O corpo feminino não está ali como vítima clássica, mas também não é heroína. Ele é campo. Campo de disputa, de inscrição, de herança. Um corpo que aprendeu a desejar dentro de um regime de contenção. Um corpo que associa intensidade àquilo que fere porque foi ali que algo real aconteceu.
E isso é profundamente desconfortável… porque desmonta a ideia confortável de que o desejo sempre nasce da liberdade.
O castelo, para mim, é quase um corpo também. Um corpo velho, pesado, cheio de corredores onde o passado não passou. Tudo ali ecoa. Nada se resolve. A morte não interrompe o vínculo. O fantasma não é sobrenatural no sentido clássico… ele é afetivo. É o retorno daquilo que nunca foi elaborado.
Pela Poética da Fricção, esse filme não busca conciliação. Ele não oferece saída simbólica. Ele expõe. Ele mantém o atrito vivo. O prazer não vem como descarga, mas como tensão sustentada. O desconforto não se resolve, se instala.
E talvez seja isso que torna o filme tão atual. Ele não promete cura. Ele não diz “supere”. Ele mostra que há desejos que não querem ser curados… querem ser reencenados, porque ali está a única linguagem que aprenderam.
Bava não faz um cinema de resposta. Ele faz um cinema de permanência.
E, no fundo, o que me atravessa nesse filme é isso: a percepção incômoda de que, às vezes, a gente confunde intensidade com amor… não por perversão, mas por falta de outra forma de sentir.
Essa leitura não absolve. Também não condena.
Ela apenas permanece no atrito. Que é exatamente onde a Poética da Fricção se instala: no lugar onde o desejo não pede permissão
e o corpo lembra antes de pensar. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/12/2025
Alterado em 27/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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