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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Leitura pessoal de O Chicote e o Corpo — pela Poética da Fricção

 

Não consigo ver ou analisar o filme, O Chicote e o Corpo como um filme sobre sadomasoquismo... Sempre vi como um filme sobre memória que não solta o corpo.

 

O chicote, ali, não me parece um instrumento de prazer. Ele funciona como uma língua antiga… uma forma de comunicação que só existe porque outras falharam. Não é o objeto que importa, mas o que ele carrega: repetição, culpa, desejo que não encontrou espaço para existir de outro jeito.

 

O que mais me incomoda — e por isso me interessa — é que o filme não julga. Ele não tenta explicar psicologicamente, nem redimir moralmente. Ele apenas mostra a fricção. Mostra o atrito constante entre amor e dor, desejo e punição, entrega e poder.

 

O corpo feminino não está ali como vítima clássica, mas também não é heroína. Ele é campo. Campo de disputa, de inscrição, de herança. Um corpo que aprendeu a desejar dentro de um regime de contenção. Um corpo que associa intensidade àquilo que fere porque foi ali que algo real aconteceu.

 

E isso é profundamente desconfortável… porque desmonta a ideia confortável de que o desejo sempre nasce da liberdade.

 

O castelo, para mim, é quase um corpo também. Um corpo velho, pesado, cheio de corredores onde o passado não passou. Tudo ali ecoa. Nada se resolve. A morte não interrompe o vínculo. O fantasma não é sobrenatural no sentido clássico… ele é afetivo. É o retorno daquilo que nunca foi elaborado.

 

Pela Poética da Fricção, esse filme não busca conciliação. Ele não oferece saída simbólica. Ele expõe. Ele mantém o atrito vivo. O prazer não vem como descarga, mas como tensão sustentada. O desconforto não se resolve, se instala.

 

E talvez seja isso que torna o filme tão atual. Ele não promete cura. Ele não diz “supere”. Ele mostra que há desejos que não querem ser curados… querem ser reencenados, porque ali está a única linguagem que aprenderam.

 

Bava não faz um cinema de resposta.

Ele faz um cinema de permanência.

 

E, no fundo, o que me atravessa nesse filme é isso:

a percepção incômoda de que, às vezes, a gente confunde intensidade com amor…

não por perversão,

mas por falta de outra forma de sentir.

 

Essa leitura não absolve.

Também não condena.

 

Ela apenas permanece no atrito.

Que é exatamente onde a Poética da Fricção se instala:

no lugar onde o desejo não pede permissão

 

e o corpo lembra

antes de pensar.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/12/2025
Alterado em 27/12/2025
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