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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A poética da fricção: antes do nome

antes da linguagem

já havia o corpo

e antes do corpo

já havia a entrega

 

não são figuras

são funções antigas

 

não caminham

emergem

do mesmo escuro

que ensinou a terra

a receber

 

o corpo estendido

não é mulher

não é vítima

não é desejo

 

é eixo

 

quando toca o solo

o mundo se organiza

em torno dele

 

as vestes negras

não escondem rostos

apagam identidades

 

ninguém ali

é alguém

 

o rito não começa

ele retorna

 

retorna de um tempo

em que oferecer

não era perda

e cair

não era erro

 

o vento passa

como se lembrasse

um idioma esquecido

 

as mãos não tocam

porque tocar seria tardio

 

o gesto verdadeiro

é permitir

 

o corpo aberto ao céu

não pede abrigo

pede inscrição

 

as marcas não significam dor

significam passagem

 

cada traço

é uma constelação antiga

repetida na carne

 

o sagrado aqui

não absolve

não condena

 

o sagrado reconhece

 

as figuras guardam

não vigiam

 

sabem que o mito

não precisa de plateia

 

o corpo permanece

até que o tempo

se curve

 

não há fim do rito

porque o rito

é o próprio campo

 

e quando o mundo voltar

a chamar isso de imagem

ou cena

ou transgressão

 

a terra continuará sabendo

que ali

algo sem nome

foi lembrado

 

não por crença

não por desejo

 

mas porque certos gestos

precisam atravessar os séculos

para que o humano

não se esqueça

do que veio antes dele.

 

 

✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️

 

 

✔️Nota

 

Este texto opera no território do mítico anterior à moral.

Não há personagens, não há narrativa psicológica, não há erotismo como finalidade. O corpo é tratado como eixo arcaico, superfície onde o mundo reaprende sua origem.

 

A radicalização simbólica desloca a leitura do humano contemporâneo para um tempo pré-nome, onde gesto, terra e silêncio antecedem qualquer ética social. O rito não é violência nem redenção… é reconhecimento. O corpo não representa gênero, desejo ou vítima. Ele funciona como marco, inscrição, lembrança viva.

 

A blasfêmia aqui não afronta um credo específico. Ela rompe com a ideia moderna de sagrado como pureza, elevação ou salvação. O sagrado, neste campo, pesa, imobiliza, marca. Ele não consola. Ele inscreve.

 

As figuras veladas não exercem poder humano. Elas são funções rituais, guardiãs de um gesto que não pede plateia nem explicação. O silêncio não é ausência… é método. A distância não é frieza… é precisão.

 

A Poética da Fricção, neste estágio, abandona a conciliação entre beleza e sentido. Ela expõe o desconforto de lembrar que o corpo, antes de ser discurso, foi território, altar, campo.

 

Não há catarse.

Não há libertação.

 

Há permanência no limite…

onde o mito não explica, apenas permanece.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/12/2025
Alterado em 27/12/2025
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