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A poética da fricção: antes do nomeantes da linguagem já havia o corpo e antes do corpo já havia a entrega
não são figuras são funções antigas
não caminham emergem do mesmo escuro que ensinou a terra a receber
o corpo estendido não é mulher não é vítima não é desejo
é eixo
quando toca o solo o mundo se organiza em torno dele
as vestes negras não escondem rostos apagam identidades
ninguém ali é alguém
o rito não começa ele retorna
retorna de um tempo em que oferecer não era perda e cair não era erro
o vento passa como se lembrasse um idioma esquecido
as mãos não tocam porque tocar seria tardio
o gesto verdadeiro é permitir
o corpo aberto ao céu não pede abrigo pede inscrição
as marcas não significam dor significam passagem
cada traço é uma constelação antiga repetida na carne
o sagrado aqui não absolve não condena
o sagrado reconhece
as figuras guardam não vigiam
sabem que o mito não precisa de plateia
o corpo permanece até que o tempo se curve
não há fim do rito porque o rito é o próprio campo
e quando o mundo voltar a chamar isso de imagem ou cena ou transgressão
a terra continuará sabendo que ali algo sem nome foi lembrado
não por crença não por desejo
mas porque certos gestos precisam atravessar os séculos para que o humano não se esqueça do que veio antes dele.
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✔️Nota
Este texto opera no território do mítico anterior à moral. Não há personagens, não há narrativa psicológica, não há erotismo como finalidade. O corpo é tratado como eixo arcaico, superfície onde o mundo reaprende sua origem.
A radicalização simbólica desloca a leitura do humano contemporâneo para um tempo pré-nome, onde gesto, terra e silêncio antecedem qualquer ética social. O rito não é violência nem redenção… é reconhecimento. O corpo não representa gênero, desejo ou vítima. Ele funciona como marco, inscrição, lembrança viva.
A blasfêmia aqui não afronta um credo específico. Ela rompe com a ideia moderna de sagrado como pureza, elevação ou salvação. O sagrado, neste campo, pesa, imobiliza, marca. Ele não consola. Ele inscreve.
As figuras veladas não exercem poder humano. Elas são funções rituais, guardiãs de um gesto que não pede plateia nem explicação. O silêncio não é ausência… é método. A distância não é frieza… é precisão.
A Poética da Fricção, neste estágio, abandona a conciliação entre beleza e sentido. Ela expõe o desconforto de lembrar que o corpo, antes de ser discurso, foi território, altar, campo.
Não há catarse. Não há libertação.
Há permanência no limite… onde o mito não explica, apenas permanece. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/12/2025
Alterado em 27/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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