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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


não é prisão

é concordância silenciosa

 

o corpo encostado à árvore

aprendeu cedo

que madeira também escuta

 

as cordas não ferem

ensinam

desenham no corpo

o mapa exato da entrega

 

não há grito

porque o rito não pede ruído

 

a figura negra não se aproxima

domina pela distância

o poder não precisa tocar

para atravessar

 

o véu arrasta no chão

como memória

como promessa

como ameaça sem pressa

 

o corpo amarrado não implora

ele sustenta

o peso de ser visto

inteiro

exposto

sem metáfora

 

há erotismo no controle

não no ato

mas no intervalo

entre obedecer

e desejar

 

a árvore não salva

testemunha

 

as pernas tremem

não de medo

mas de reconhecimento

o corpo sabe

quando está sendo lido

como texto vivo

 

o nó aperta

não para conter

mas para lembrar

que liberdade também pode

imobilizar

 

a figura negra observa

não por crueldade

mas por método

 

todo desejo profundo

exige forma

exige limite

exige silêncio

 

e ali

na fricção entre corda e pele

entre olhar e espera

entre entrega e poder

 

o corpo aprende

que nem todo abismo

é queda

 

alguns são altar

e nem toda submissão

é perda

 

algumas são

a mais íntima

das escolhas.

 

 

✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️✨️

 

 

✔️Nota do texto

 

Este texto não descreve um ato, nem celebra a violência.

Ele opera no campo do rito simbólico, onde desejo, poder, fé e corpo se friccionam como linguagem.

 

A blasfêmia aqui não é contra uma religião específica, mas contra a ideia de pureza moral aplicada ao desejo. O sagrado é tratado como aquilo que exige forma, limite e consciência, não como redenção. O corpo não é vítima… é signo, escolha, prova.

 

O desconforto é intencional.

Ele nasce do deslocamento entre o que se espera que seja amor, fé ou entrega e o que, de fato, pulsa quando o controle é assumido como pacto — não como coerção.

 

A imagem e o texto se encontram no intervalo:

entre submissão e autonomia,

entre altar e abismo,

entre consentimento e vertigem.

 

Não há catarse.

Há permanência no limite.

 

Essa é a Poética da Fricção:

não reconciliar…

expor.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 27/12/2025
Alterado em 27/12/2025
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