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o abismo não nasceu dela nasceu no que ele calou
um espaço aberto entre a palavra que não veio e o olhar que desviou
ele chamou isso de cuidado de silêncio maduro de contenção
mas era medo
medo de ser visto inteiro medo de admitir o que pulsava por baixo da postura correta
ela sentiu
não com a razão mas com o corpo
sentiu no atraso das respostas no toque que parava cedo demais no desejo sempre interrompido como se houvesse culpa em querer
o abismo era isso o desejo dele sem nome sem coragem
e ela caiu
não porque fosse fraca mas porque acreditou que dentro daquele vazio havia sentido verdade alguma coisa que explicasse a distância ela caiu tentando entender tentando salvar tentando decifrar o homem que a amava sem se entregar
o fundo era quente não escuro
o abismo excitava porque era intenso porque doía porque prometia revelação
ela confundiu vertigem com profundidade
e quanto mais descia mais o corpo reagia não de prazer mas de expectativa
esperava encontrar no fundo o que ele nunca disse em cima
mas o abismo não fala
ele só ecoa o que foi escondido
quando ela percebe já não está caindo está habitando
vivendo dentro do silêncio dele
e isso isso é o mais cruel
não o abismo mas amar alguém que transforma desejo em vazio e chama isso de amor contido. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/12/2025
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