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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


ruptura explícita

 

I. Intervalo

Não é o toque que falta.

É o espaço que sobra.

Entre teu passo e o meu

existe um território instável

onde o corpo aprende

a não avançar.

Ali, o desejo não pede forma.

Ele vibra.

Como um vidro prestes a ceder

sem jamais quebrar.

 

II. Retorno

Há algo em mim

que te reconhece

antes do nome.

Não é memória.

É reincidência.

O tempo tentou nos separar

em versões distintas,

mas falhou exatamente aqui:

no instante em que o olhar

não precisa de explicação.

 

III. Fricção

Não somos encontro.

Somos resistência.

Duas forças próximas demais

para serem neutras,

distantes demais

para se anularem.

O que pulsa entre nós

não quer resolução.

Quer permanência no conflito.

 

IV. Limiar

Se avanço, perco.

Se recuo, desapareço.

Por isso fico.

Suspensa.

O limiar não é passagem,

é morada.

Lugar onde o desejo

aprende a respirar

sem se consumir.

 

V. Quase

O quase é mais honesto

que qualquer certeza.

Ele não promete,

não fecha,

não conclui.

O quase mantém vivo

o que morreria

no excesso.

E é ali,

onde nada se completa,

que continuamos.

 

(ruptura)

 

 

VI. Fenda

Não é amor.

É falha.

Algo que não fecha

mesmo pressionado.

O corpo tenta costurar

o que o desejo rasgou

com método.

Fracassa.

 

VII. Ruído

O silêncio não é paz.

É acúmulo.

Tudo o que não foi dito

faz barulho

por dentro.

O desejo não fala.

Ele range.

 

VIII. Deslocamento

Já não sei

onde termina teu nome

e começa o erro.

O tempo escorre torto.

Nada se encaixa.

Não estamos perdidos.

Estamos fora do eixo.

 

IX. Excesso

Não quero mais o quase.

Quero a vertigem.

O limiar agora corta.

Não acolhe.

Desejar

vira um gesto perigoso

demais

para ser belo.

 

X. Persistência

Mesmo assim,

algo insiste.

Não é esperança.

É vício.

O corpo retorna

não porque quer,

mas porque não aprendeu

a parar.

 

 

Nota Curatorial

Esta obra começa como tensão e termina como fratura. O que antes era suspensão torna-se falha estrutural.

 

O leitor atravessa o limiar acreditando que ele acolhe… até perceber que o limiar também fere...

Nada aqui se resolve.

O desejo não amadurece.

Ele insiste até deformar.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 23/12/2025
Alterado em 27/12/2025
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