Este texto integra a Poética de Fricção Liminar, uma escrita experimental baseada no atrito entre corpo, desejo, linguagem e paisagem psíquica. Não busca conciliação, mas exposição.
Texto Dois: Zona de Atrito
O corpo não pede sentido.
Ele acontece.
Antes da palavra,
há um impulso que não sabe nome,
uma pressão que empurra de dentro
como se a pele fosse apenas um acordo frágil.
Não escrevo para organizar o caos.
Escrevo porque o caos já me atravessou
e deixou marcas.
A linguagem tenta acompanhar.
Tropeça.
Rasga.
Chega atrasada.
O desejo não é escolha.
É repetição que insiste
mesmo quando a moral monta guarda.
O eu oscila.
Hoje acredita.
Amanhã recua.
Depois retorna como se nada tivesse aprendido.
O silêncio não pacifica.
Ele vibra.
É ruído contido
esperando uma fissura.
A cidade pensa comigo.
Muros absorvem o que não confesso.
Máquinas respiram o que não digo.
O mundo externo devolve
aquilo que tentei manter dentro.
Não há síntese.
Há atrito contínuo.
Cada frase termina
antes de se explicar.
Cada pausa carrega mais peso
do que a palavra.
Se algo aqui incomoda,
não é o excesso.
É a exposição.
O texto não fecha.
Ele permanece aberto
como um corpo em estado de alerta.
E é nesse limite instável,
onde nada se resolve
e tudo insiste,
que a escrita acontece.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/12/2025
Alterado em 27/12/2025