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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Nota de abertura

Este texto integra a Poética de Fricção Liminar, uma escrita experimental baseada no atrito entre corpo, desejo, linguagem e paisagem psíquica. Não busca conciliação, mas exposição.

 

Texto Dois:  Zona de Atrito

 

 

O corpo não pede sentido.
Ele acontece.

Antes da palavra,
há um impulso que não sabe nome,
uma pressão que empurra de dentro
como se a pele fosse apenas um acordo frágil.

Não escrevo para organizar o caos.
Escrevo porque o caos já me atravessou
e deixou marcas.

A linguagem tenta acompanhar.
Tropeça.
Rasga.
Chega atrasada.

O desejo não é escolha.
É repetição que insiste
mesmo quando a moral monta guarda.

O eu oscila.
Hoje acredita.
Amanhã recua.
Depois retorna 
como se nada tivesse aprendido.

O silêncio não pacifica.
Ele vibra.
É ruído contido
esperando uma fissura.

A cidade pensa comigo.
Muros absorvem o que não confesso.
Máquinas respiram o que não digo.
O mundo externo devolve
aquilo que tentei manter dentro.

Não há síntese.
Há atrito contínuo.

Cada frase termina
antes de se explicar.
Cada pausa carrega mais peso
do que a palavra.

Se algo aqui incomoda,
não é o excesso.
É a exposição.

O texto não fecha.
Ele permanece aberto
como um corpo em estado de alerta.

E é nesse limite instável,
onde nada se resolve
e tudo insiste,
que a escrita acontece.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/12/2025
Alterado em 27/12/2025
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