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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Nota de abertura

Este ciclo integra a Poética de Fricção Liminar. São três movimentos de uma mesma experiência… exposição, falha e insistência. Não há conciliação. Há risco.

 

I. Exposição (Leiris)

Entro no texto sem salvaguarda.
O que escrevo não me representa… me compromete.

O corpo chega antes da ideia.
Traz consigo a vergonha, o erro, a memória mal resolvida.
A frase tenta organizar, mas já é tarde.

Não confesso para ser perdoada.
Exponho para não mentir.

Cada palavra arranha a imagem que fiz de mim.
Algo precisa cair para que o texto respire.

Escrever é aceitar o custo.
É saber que alguém vai olhar
e não desviar os olhos.

Não peço entendimento.
Peço presença.

 

II. Falha (Blanchot)

A linguagem avança até onde pode…
e então para.

Não porque terminou,
mas porque não há mais onde pisar.

O sentido se aproxima do silêncio
e não recua.

O texto não explica.
Ele permanece em vigília.

Aqui, nada se resolve.
A frase não fecha.
O pensamento não se conclui.

Há um intervalo que não se preenche.
É nele que fico.

Escrever não é dizer algo.
É sustentar o que não pode ser dito
sem transformá-lo em ausência.

O texto acaba.
A experiência, não.

 

III. Insistência (Klossowski)

O desejo retorna.
Não pergunta se pode.

Ele repete o gesto
mesmo quando a consciência tenta interditar.

Não há centro estável.
O eu oscila, muda de posição, se contradiz.

A moral observa de fora
sem conseguir intervir.

O corpo já decidiu.

A linguagem tenta acompanhar esse movimento irregular.
Tropeça.
Retoma.
Insiste.

Nada aqui é espontâneo.
Tudo se repete porque precisa.

O texto não busca redenção.
Busca intensidade suficiente
para não se neutralizar.

Escrever é aceitar que o desejo não obedece.
E ainda assim continuar.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/12/2025
Alterado em 27/12/2025
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