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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


MANIFESTO - (para uma poesia em estado de fricção)

 

Não escrevo para agradar.

Escrevo porque o mundo já não se explica por formas dóceis.

 

A poesia, como foi domesticada, tornou-se confortável demais…

e conforto é um sintoma de anestesia.

 

Rejeito a ideia de beleza como conciliação.

Rejeito a palavra que fecha, que pacifica, que promete sentido.

 

Minha escrita nasce do atrito

entre corpo e ideia,

entre desejo e ruína,

entre linguagem e falha.

 

O mundo não é lírico.

Ele é clínico, técnico, violento, repetitivo.

A subjetividade já não habita apenas o íntimo…

ela se projeta em cidades, máquinas, imagens, protocolos, telas.

 

O inconsciente não sonha…

ele opera.

 

Escrever, hoje, é aceitar que a psique se tornou paisagem

e que a paisagem devolve o trauma como espelho.

 

Não busco transcendência.

Busco exposição.

 

O sagrado não está acima.

Está no limite.

No risco.

Naquilo que ameaça romper a ordem e, ainda assim, insiste.

 

A moral é um artefato histórico.

O desejo, uma força sem nostalgia.

 

Não escrevo para salvar o humano.

Escrevo para testá-lo.

 

Minha poesia não descreve a queda…

ela acontece durante a queda.

 

O haicai, aqui, não contempla.

Ele corta.

É curto porque o impacto precisa ser direto.

É mínimo porque o excesso já está no mundo.

 

Não cultivo metáforas naturais.

Prefiro estruturas, resíduos, ruídos, superfícies.

A flor deu lugar ao concreto rachado.

O silêncio, ao zumbido contínuo.

 

A palavra não é abrigo.

É dispositivo.

 

Escrever é desmontar sistemas de sentido

sem oferecer substitutos reconfortantes.

 

Se há alguma ética nisso,

ela não é a do bem…

é a da lucidez.

 

Minha poesia não pede permissão.

Ela invade, falha, insiste.

 

Não promete redenção.

Promete consciência do abismo.

 

E isso, hoje,

já é uma forma radical de verdade.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/12/2025
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