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MANIFESTO - (para uma poesia em estado de fricção)
Não escrevo para agradar. Escrevo porque o mundo já não se explica por formas dóceis.
A poesia, como foi domesticada, tornou-se confortável demais… e conforto é um sintoma de anestesia.
Rejeito a ideia de beleza como conciliação. Rejeito a palavra que fecha, que pacifica, que promete sentido.
Minha escrita nasce do atrito entre corpo e ideia, entre desejo e ruína, entre linguagem e falha.
O mundo não é lírico. Ele é clínico, técnico, violento, repetitivo. A subjetividade já não habita apenas o íntimo… ela se projeta em cidades, máquinas, imagens, protocolos, telas.
O inconsciente não sonha… ele opera.
Escrever, hoje, é aceitar que a psique se tornou paisagem e que a paisagem devolve o trauma como espelho.
Não busco transcendência. Busco exposição.
O sagrado não está acima. Está no limite. No risco. Naquilo que ameaça romper a ordem e, ainda assim, insiste.
A moral é um artefato histórico. O desejo, uma força sem nostalgia.
Não escrevo para salvar o humano. Escrevo para testá-lo.
Minha poesia não descreve a queda… ela acontece durante a queda.
O haicai, aqui, não contempla. Ele corta. É curto porque o impacto precisa ser direto. É mínimo porque o excesso já está no mundo.
Não cultivo metáforas naturais. Prefiro estruturas, resíduos, ruídos, superfícies. A flor deu lugar ao concreto rachado. O silêncio, ao zumbido contínuo.
A palavra não é abrigo. É dispositivo.
Escrever é desmontar sistemas de sentido sem oferecer substitutos reconfortantes.
Se há alguma ética nisso, ela não é a do bem… é a da lucidez.
Minha poesia não pede permissão. Ela invade, falha, insiste.
Não promete redenção. Promete consciência do abismo.
E isso, hoje, já é uma forma radical de verdade. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/12/2025
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