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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Carta aberta a quem escolhe um lado enquanto há um massacre.

Sydney, Austrália.

14 de Dezembro de 2025.

 

 

Não é uma metáfora.

Não é uma abstração histórica.

Não é um “contexto complexo” perdido em séculos de disputa.

 

É um homem armado caminhando entre pessoas comuns. É gente caída no chão de um centro comercial. É sangue em um país que se orgulha de estabilidade. É o mundo real atravessado por ódio, radicalização, colapso humano. E, ainda assim, vocês correram para os comentários.

 

Antes mesmo que os mortos fossem identificados, antes que famílias fossem avisadas, antes que o luto tivesse espaço… vocês escolheram um lado. Religião. Política. Ideologia. Narrativa. Culpa. Defesa. Ataque.

 

Hannah Arendt alertou que “o maior mal do mundo é cometido por ninguém em particular, por pessoas que se recusam a pensar”. Vocês pensaram? Ou apenas reagiram?

 

Jean-Paul Sartre escreveu que “somos responsáveis por aquilo que fazemos com o que fizeram de nós”. Onde está essa responsabilidade quando se usa um massacre como argumento?

 

De um lado, alguns justificaram... Do outro, alguns demonizaram... No meio, corpos.

 

Friedrich Nietzsche já dizia que “quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um”. Mas vocês parecem ter esquecido de olhar no espelho antes de escrever.

 

Defensores da fé citaram Deus.

Defensores do Estado citaram segurança.

Defensores da causa citaram história.

Poucos citaram vidas.

 

Martin Buber, filósofo judeu, afirmava que “toda vida verdadeira é encontro”. Onde está o encontro quando o outro vira apenas inimigo?

 

Edward Said, intelectual palestino, lembrava que “a desumanização é sempre o primeiro passo para a violência legitimada”. Vocês chamaram pessoas de monstros com uma facilidade assustadora.

 

A guerra não começa com bombas. Ela começa quando a morte vira discurso aceitável.

 

Quando o massacre vira prova de ponto de vista... Quando o sofrimento alheio é instrumentalizado para reforçar certezas pessoais.

 

A paz não nasce do silêncio conveniente, mas também não nasce do grito histérico.

 

Baruch Spinoza escreveu que “a paz não é ausência de guerra, mas uma virtude, um estado de espírito, uma disposição para a benevolência”. E aqui está o ponto que incomoda…

 

A paz só é desejada de verdade por quem faz de tudo para que a guerra não aconteça. E isso inclui conter o próprio ódio.

 

Inclui recusar explicações fáceis.

Inclui parar de usar cadáveres como retórica.

 

Enquanto vocês escolhem lados nos comentários, a terra segue fazendo o que sempre fez.

 

Sete palmos.

Para todos.

Sem religião.

Sem ideologia.

Sem razão histórica.

 

Talvez o mundo não precise de mais opiniões. Precise de mais pensamento.

Mais escuta... Mais vergonha diante da morte banalizada.

 

Porque quando a humanidade transforma massacre em debate…

ela já perdeu muito antes do primeiro tiro.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/12/2025
Alterado em 14/12/2025


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