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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


MANIFESTO CONTRA A MÁQUINA QUE NOS MATA

 

I.

O Brasil acordou com duas mulheres mortas.

De novo.

Sempre de novo.

E a mídia ainda tenta dizer “tragédia”.

Tragédia é o imprevisto.

Isso aqui não tem nada de imprevisto.

 

II.

Um homem não aceitou ser chefiado por mulheres.

Um homem crescido na cartilha do “red pill”.

Um homem alimentado por influenciadores que chamam misoginia de masculinidade.

Um homem que acreditou Q autoridade feminina é afronta.

E afronta, pra ele, é motivo de matar.

 

III.

Não é loucura.

Não é surto.

Não é acaso.

É lógica.

É método.

É sistema.

 

IV.

Esse homem não agiu sozinho.

Antes do gatilho, houve discurso.

Antes do tiro, houve validação.

Antes da morte, houve aplauso, meme, comentário, risada, seguidor.

Houve um país inteiro treinando ele para odiar mulheres que ousam comandar.

 

V.

Foucault já dizia:

não existe violência sem discurso que a permita.

E esse crime foi permitido.

Permitido pelos algoritmos.

Pelas conversas de bar.

Pelas frases soltas no trabalho.

Pelos silêncios complacentes.

Pela covardia coletiva.

 

VI.

O Brasil fabrica homens assim.

Homens que confundem poder com posse.

Homens que dão chilique ao menor sinal de autoridade feminina.

Homens que transformam sua incompetência em vingança.

 

VII.

E no fim, são sempre elas que pagam.

Elas que lideram.

Elas que rompem a ordem.

Elas que ousam ocupar o lugar onde disseram que era proibido.

Elas que se tornam alvo de quem tem medo até da própria sombra.

 

VIII.

Isso não é opinião.

Não é liberdade de expressão.

Não é debate.

É propaganda de guerra.

É máquina de moer mulher.

E o Brasil opera essa máquina com eficiência de indústria pesada.

 

IX.

O caso do CEFET não é um ponto fora da curva.

A curva é essa.

A estatística é essa.

A estrutura é essa.

E quem não enxerga isso faz parte do problema.

 

X.

Byung-Chul Han fala da sociedade do cansaço.

Mas aqui o cansaço tem cor, tem nome, tem gênero:

mulheres exaustas de sobreviver à masculinidade ressentida.

Mulheres cansadas de carregar o país nas costas enquanto os homens carregam armas para defender o próprio ego.

 

XI.

Bataille falaria do limite, da transgressão, do sangue como linguagem.

Pois aqui está:

o limite ultrapassado.

A transgressão normalizada.

O sangue feminino usado como assinatura dessa masculinidade doente.

 

XII.

O Brasil precisa parar de perguntar

“por que ele fez isso?”

e começar a perguntar

“por que tantos homens se sentem autorizados a fazer isso?”.

 

XIII.

Não é sobre um assassino.

É sobre o país que o formou.

Sobre os discursos que circulam livres.

Sobre os líderes que assistem calados.

Sobre as plataformas que monetizam ódio.

Sobre as instituições que aceitam misoginia como se fosse opinião legítima.

 

XIV.

Isso tem nome:

violência de gênero.

Mas também tem sobrenome:

projeto político.

 

XV.

Enquanto o Brasil defender o direito de homens odiarem mulheres em voz alta…

as mulheres vão continuar morrendo em silêncio.

 

XVI.

E a pergunta final, Simone…

é a única que ainda importa…

a única que ainda rasga…

a única que ainda arde…

 

Quantas mais? Quantas mulheres esse país ainda vai sacrificar antes de admitir que a verdadeira guerra nunca foi cultural…

foi sempre contra elas?

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 29/11/2025
Alterado em 29/11/2025
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