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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


por Monet Carmo

 

Nota da autora

Este artigo foi escrito ao longo de um mês, após me decepcionar em me permiti conversar com uma pessoa sem rosto.

 

Uma pessoa que tinha rosto num site de literatura, mas que, quando o contato passou para o telefone, desapareceu.

 

A voz vinha em palavras escritas, nunca faladas. Nunca atendeu uma ligação.

Nunca aceitou uma chamada de vídeo. Nunca mandou um único áudio.

 

E quando o meu olhar começou a tocar o que estava encoberto, eu percebi que não conversava com quem imaginava.

Conversava com alguém que se definia como um monstro.

 

Mas que tipo de monstro?

O que coloca uma foto que não é sua?

O que controla tudo por um celular e foge do som da própria voz?

O que se alimenta da confiança alheia, mas nunca se deixa ver?

 

Que tipo de monstro te seduz e faz juras de amor, mas evita o contato humano?

Esse é o pior tipo de Narcisista, o que fere aquele que se expõe por desejar nutrir algum sentimento bom... 

 

 

O Narcisismo dos Sem-Rosto

Epígrafe

 “O espelho só devolve o que há coragem de olhar.” — Monet Carmo

 

1. A era dos perfis sem espelho

 

Vivemos um tempo em que o anonimato se traveste de virtude.

As redes, os sites literários, os espaços de expressão... todos estão cheios de nomes que brilham, comentam, interagem mas não existem. São perfis, pseudônimos, reflexos. E o mais irônico: muitos desses rostos invisíveis chamam de narcisistas justamente os que se mostram.

 

Zygmunt Bauman (2001) descreveu esse fenômeno com precisão: a modernidade líquida dissolveu os vínculos e os transformou em conexões descartáveis.

O indivíduo moderno não se compromete com o outro, apenas com sua própria narrativa. E o narcisismo, nesse cenário, deixa de ser vaidade e torna-se um modo de sobrevivência... uma forma de controlar o espelho.

 

2. Narcisismo e ausência: a estética da covardia.

 

Freud (1914) definia o narcisismo como a libido voltada para o eu. Mas o narcisismo de hoje é mais covarde: não é amor-próprio, é medo da presença. O sujeito não quer ser visto quer ser imaginado. Quer ser lido, seguido, elogiado… mas nunca reconhecido. Quer criar intimidade sem mostrar o rosto.

 

Christopher Lasch (1979) chamou isso de “a cultura do narcisismo”: um tempo em que a admiração substitui o afeto. E Chul Han (2010, 2012) complementa: vivemos na sociedade da transparência, onde todos parecem expostos, mas ninguém se revela.

Mostram o que controla, escondem o que sente.

 

3. A intimidade simulada e o fetiche do controle

 

A tecnologia prometeu aproximar as pessoas, mas o narcisismo digital fez o contrário... Hoje, o afeto virou ferramenta de manipulação. Quantas relações começam com trocas de palavras doces e terminam em silêncios calculados?...

Quantas “amizades” virtuais são apenas exercícios de poder?

 

A pesquisadora Sherry Turkle (2011) chama isso de intimidade simulada: quanto mais se conversa, menos se comunica. Essas relações sem rosto criam um teatro de proximidade, onde o outro existe apenas para satisfazer o controle de quem puxa as cordas. É a arte de dominar sem jamais se mostrar.

 

4. O corpo e o rosto como resistência

 

Mostrar o rosto é um ato de coragem.

Mostrar o corpo é uma forma de dizer: eu existo, eu assumo o que escrevo, eu sou real. O corpo é a prova de presença, o rosto é a assinatura do ser. E é por isso que incomoda.

 

Os verdadeiros narcisistas não suportam o reflexo, precisam que o outro os imagine, nunca que os veja... Eles se alimentam do olhar, mas não do encontro...Vivem do desejo alheio, mas não suportam a reciprocidade. Como diria Jean Baudrillard (1991), são simulacros, cópias de uma identidade que nunca existiu! 

 

5. O espelho apagado

 

Talvez o único espelho que essas pessoas tenham seja a tela desligada do computador... Quando o monitor apaga e o rosto surge, refletido no preto, silencioso, humano... é ali que a farsa se dissolve.

Porque quando o nome é tudo o que resta, o rosto já morreu há muito tempo... E quando o rosto morre, resta apenas a sombra, tentando convencer o mundo de que ainda respira.

 

Referências Bibliográficas

 

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução. 1914.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

LASCH, Christopher. A Cultura do Narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 05/11/2025
Alterado em 05/11/2025
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