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Lucidez não é fraqueza
Já alimentei pessoas que me feriram e ainda assim deixei a porta da cozinha aberta. Passei o prato mesmo sabendo que falavam de mim com a boca ainda cheia. Fiz isso de rosto limpo, porque minha generosidade nunca foi moeda de troca. Ela é um espelho… mostra quem eu sou e também quem eles nunca foram. Falaram nos cantos, sorriram nas sombras, e mesmo assim eu apareci com algo quente pra oferecer. Eu não sirvo porque eles merecem. Sirvo porque sei quem sou.
Já enxuguei lágrimas de quem me fez chorar. Quando desabaram, eu não vibrei. Peguei um pano limpo, como sempre. Porque a dor, eu conheço bem. E conhecendo, eu escolho não repassar. Recuso-me a ser a mesma lama que já tentou me engolir.
Apoiei quem tentou me derrubar. Estenderam o pé, e quando tropeçaram, eu estendi a mão. Não por esquecimento, mas por grandeza. Lembro de tudo e ainda assim escolho não virar bagunça igual. Dizem que é burrice. Eu chamo de força daquelas que não precisam de plateia.
Estive do lado de quem nunca esteve do meu. Atendi ligações de quem me decepcionou e ouvi vozes que se calaram quando eu precisei. Mantive meus valores, mesmo quando o mundo girava torto. Lealdade, pra mim, não é show, é decisão diária. Custa caro, mas me deixa dormir em paz.
Já me chamaram de louca por dar chance demais. Talvez eu tenha sido. Mas nunca deixei a amargura me moldar. Hoje, abro e fecho portas conforme a minha vontade. Não corro atrás, não imploro, não negocio respeito. Dou um passo pra trás e deixo o eco ensinar o que minha voz cansou de dizer.
Perdão não é tapete de boas-vindas. É chão limpo, o que eu varro pra andar leve. Quem quiser entrar, venha com sapato limpo. Caso contrário, fica lá fora. Eu não devo minha raiva a ninguém. Só devo a mim mesma a paz de poder abençoar de longe.
A vida tentou me reduzir, e eu ainda brilho. Tentou me endurecer, e eu aprendi a ser firme sem perder a delicadeza. Carrego minha calma como armadura e minha determinação como trovão. Sei ser silêncio sem ser pequena, sei ser gentil sem ser boba.
Aprendi a ir embora sem bater portas. Posso te amar e ainda assim me proteger. Posso te entender e mesmo assim recusar. Posso me importar e mesmo assim cortar. Meus limites não punem, protegem. Quem os respeita, me encontra. Quem não respeita, me perde pra sempre.
Não quero convencer ninguém a me valorizar. Quero viver tanto, e tão inteira, que quem tentou me diminuir só consiga me assistir de longe. Cansei de explicar minha dor pra quem idolatra sofrimento. Cansei de provar força pra quem só entende desgraça. Minha dignidade é silenciosa, e ainda assim grita.
Em meio à lama, permaneci. Em meio às fofocas, fiquei de pé. Em meio às quedas, reconstruí. Continuei trabalhando, amando, curando. Já chorei no chão do banheiro e ainda assim saí com a cabeça erguida. Não fiquei amarga pra sobreviver. Fiquei pura, e isso é raro.
Se comeu na minha mesa e cuspiu meu nome, abençoo tua fome e retiro tua cadeira. Se me quebrou e voltou quebrado, desejo cura, mas longe da minha porta. Se me empurrou pro abismo, obrigada, mas aprendi a voar. E se nunca esteve aqui, aprendi a ser multidão de mim mesma. Os aplausos que escuto hoje vêm de dentro.
Sou a mulher que não se afoga no escuro alheio. Que segura a própria mão. Que levanta sem se rebaixar. Posso ser doce e ainda assim indomável. Não estou aqui pra agradar. Estou aqui pra ser verdade.
E é assim que termino: firme, clara, inteira. Alimentei ingratos, acalmei cruéis, ergui os caídos, e continuo de pé. A vida é dura, as pessoas nem sempre são boas, mas meu coração segue no lugar certo. Estarei aqui amanhã e depois, não nos teus ruídos, mas no meu caminho… intocada pela inveja, imperturbável pelo caos e fiel à mulher que escolhi ser. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 29/10/2025
Alterado em 29/10/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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