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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O narcisismo digital e o colapso da verdade.

 

Há algo de podre nas relações modernas.

E não há possibilidade de chamar de poesia.

É sim, um diagnóstico triste do Humano moderno.

 

 

Vivemos num tempo em que a mentira se traveste de afeto, o ego se fantasia de empatia e o amor virou espetáculo. Pessoas inventam identidades, histórias, datas, profissões. Usam o outro como palco, e depois somem, deixando um eco de promessas não cumpridas.


É o narcisismo elevado à sua forma mais contemporânea: digital, performático, cruel.

 

Freud, em Introdução ao Narcisismo (1914), descreveu que o sujeito, para amar, precisa investir libido no outro, mas o narcisista é incapaz desse deslocamento. Ele ama a si mesmo através do outro, faz do vínculo um espelho.
Otto Kernberg (1975) complementa que a personalidade narcisista alterna “fascínio e destruição”, pois o outro é apenas instrumento de autoafirmação.
É a essência do que se vê hoje: a autoimagem como projeto de vida e a empatia como moeda de troca.

 

O sintoma da era da imagem

Christian Dunker (2021) chama isso de “a psicose da cultura da visibilidade”: a necessidade de ser visto, mesmo que à custa de si e dos outros. Marie-France Hirigoyen (1998), em Assédio Moral, descreve esse tipo de relação como uma forma de vampirismo emocional, o sujeito sem identidade real suga a vitalidade alheia pra sentir que existe. Esses “monstros sociais” não se escondem mais em laboratórios: vivem em perfis, timelines, fotos cuidadosamente editadas, narrativas ensaiadas.

 

A medicina reconhece esse comportamento dentro do Transtorno de Personalidade Narcisista (DSM-5), mas a cultura o normalizou.


Ser superficial virou competência.
Ser verdadeiro virou risco.
Donald Winnicott já alertava:

“Ser verdadeiro é a mais arriscada forma de existir.”

 

A Forma da Água e o espelho quebrado do humano

Em 2017, o diretor Guillermo del Toro lançou A Forma da Água (The Shape of Water), uma fábula romântica sobre uma mulher muda e uma criatura anfíbia capturada por militares norte-americanos.
Mas sob a superfície do conto, o filme revela algo brutal: a dificuldade contemporânea de reconhecer o outro sem destruí-lo.

 

Elisa, a protagonista, é muda. A criatura, um ser não nomeado, não humano, fluido talvez sem gênero, talvez ambos. Entre eles, nasce um vínculo de amor que não pede tradução, apenas presença. Enquanto o coronel Strickland representa o poder, o patriarcado e o controle, Elisa e a criatura encarnam o avesso da norma, a comunhão entre os que o sistema rejeita.

 

Del Toro declarou que o ser aquático foi criado para representar a alteridade total — o que é diferente, inclassificável, mas ainda digno de amor. A fluidez da criatura, sem sexo definido, sem linguagem fixa, é metáfora direta da contemporaneidade, onde identidades se dissolvem e se recriam num fluxo contínuo. Lacan dizia que “o real é o que retorna sempre ao mesmo lugar”, ou seja, aquilo que o simbólico tenta negar, mas que insiste em existir.


A criatura é o real. 

E, diante dela, os humanos se revelam como são:

incapazes de lidar com o que não podem controlar.

 

Diversidade, máscaras e a crise da autenticidade

A psicanálise moderna, através de autores como Julia Kristeva e Erik Erikson, já apontava: quando a sociedade reprime a diferença, o indivíduo cria personagens pra sobreviver. Hoje, essa criação se amplificou virou avatar, perfil, persona digital. Gente que mente o nome, a idade, o gênero, o rosto, a profissão — não apenas por malícia, mas por incapacidade de existir na própria pele.

 

O narcisismo contemporâneo é isso: a recusa do real. E o preço é sempre o outro. Porque o personagem precisa de plateia. Precisa de quem acredite. E quando o outro acredita, ele é sacrificado emocional, moral e simbolicamente.

 

O psiquiatra Jean Cottraux chama esse fenômeno de estupro psíquico: a invasão do afeto alheio com base em falsidade e manipulação. Não há sangue, mas há trauma. O corpo não é tocado, mas o simbólico é violado.


E a vítima,

geralmente lúcida, empática e ética fica com o peso de uma culpa

que não é dela: a culpa de ter acreditado.

 

O narcisismo e o sacrifício da alteridade

Na lógica perversa do narcisismo, o outro só existe enquanto espelho. Quando deixa de refletir o ideal, é descartado. Essa dinâmica, descrita por Freud e expandida por Kernberg, é o coração da manipulação emocional.
O narcisista não ama o outro ama o reflexo do próprio desejo que vê nele. É por isso que Elisa, no filme, e tantas pessoas na vida real, acabam feridas. Porque ousaram amar o que o mundo chama de “monstro”. E nesse gesto, revelaram o que há de mais humano: a capacidade de ver além da máscara.

 

O problema é que o narcisista moderno não quer ser visto,

quer ser adorado... E pra sustentar essa adoração,

ele precisa destruir quem o enxerga.

 

O diagnóstico social

Freud já dizia: “O narcisismo das pequenas diferenças é o que move as grandes hostilidades.”


Vivemos o auge disso uma sociedade incapaz de tolerar a diversidade que ela mesma promove. As redes sociais nos vendem inclusão, mas recompensam o espetáculo. Pregam empatia, mas celebram o cinismo. Homens fingem ser mulheres. Mulheres fingem fragilidade. Pessoas fingem ser boas. Tudo pra sobreviver a um real insuportável, onde ser verdadeiro virou subversão.

 

E quem é real, paga o preço: o da solidão ética.
Mas há dignidade nesse preço.
Porque, como diz Winnicott,

“só o verdadeiro self pode viver; o falso, apenas sobreviver.”

 

Referências Bibliográficas

  • DEL TORO, Guillermo. The Shape of Water. EUA: Fox Searchlight Pictures, 2017.

  • FREUD, Sigmund. Introdução ao Narcisismo. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

  • KERNBERG, Otto F. Borderline Conditions and Pathological Narcissism. Nova York: Jason Aronson, 1975.

  • HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

  • DUNKER, Christian Ingo Lenz. A Psicose da Cultura: Um Diagnóstico da Nossa Época. São Paulo: Boitempo, 2021.

  • WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1971.

  • LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

  • COTTRAUX, Jean. A Arte de Ser Calmo. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

  • KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. Nova York: Columbia University Press, 1982.

  • ERIKSON, Erik H. Identity: Youth and Crisis. Nova York: Norton, 1968.

Monet Carmo e Para Luciana Marins (1979 - 2025)
Enviado por Monet Carmo em 27/10/2025
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