Não sei quem tu és...
já duvidei de mim mil vezes tentando entender onde foi que eu me perdi...
se no nome trocado, no e-mail assinado por outro nome (masculino, é claro),
no número comprado só pra criar um contato...
E eu recebi tudo com aquela esperança boba de que alguém, enfim, fosse verdadeiro.
Tu disseste que nasceste em 31 de dezembro...
mas por ai, o nome que assina os e-mails,
encontrei como 02 de abril... e foi ali que tudo começou a desabar.
Entre um arquivo antigo no Netsaber, com textos que levavam tua assinatura,
e um rastro de histórias de um suposto professor universitário,
formado na UFRJ, morando num estado que te abriu portas
pra uma vida melhor, digna, junto da mãe...
tudo parecia plausível demais pra ser real.
E ainda assim, eu pedi desculpas.
Desculpas por investigar, por querer saber a verdade...
como se buscar o real fosse crime.
Enquanto isso, tu seguías fingindo ser um homem de all star azul,
camisa quadriculada, amante de super-heróis e metáforas de Guillermo del Toro.
Falavas de A Forma da Água como se fosses a criatura escondida no tanque,
esperando ser compreendida... ou compreendido... sei lá...
mas no fundo, tu só querias plateia.
Usaste meu tempo, minha escuta, minhas palavras mais íntimas.
Fiz planos, busquei passagens... quase atravessei alguns estados pra te ver.
E tudo desabou com a naturalidade de quem sempre soube que estava mentindo.
Porque era isso, não era?
Tu sabias o que fazias.
Sabias que nunca atenderias uma ligação, nunca mandarias um áudio,
nunca serias de fato quem dizias ser.
Teu crime não foi apenas emocional... foi moral.
Tu violaste o mais sagrado em alguém: a confiança.
(que pra mim é o ponto máximo do caráter humano)
E o fizeste com calma, com método, como quem estuda uma presa antes de atacar.
Disseste que eu teria ódio de ti... que eu não suportaria saber quem tu és.
Talvez tenhas razão.
Porque o que me causa repulsa não é o teu rosto desconhecido...
afinal, o que está exposto aí, todos conhecem e supõem ser teu...
mas não... talvez não...
talvez tu tenhas sentido prazer em me enganar,
afinal, sempre fui muito distante da sociedade que esse recanto cria de tempos em tempos.
Hoje penso que talvez sejas apenas um homem comum...
ou uma mulher cansada do próprio abismo...
ou um senhorzinho tentando sentir algo pela última vez...
ou alguém que coleciona corações em nome da solidão.
E se rolasse um pedido de ajuda financeira... talvez isso te bastasse.
Mas não preciso desses artifícios pra entender...
alguém já te deu esse golpe antes.
E só compreendi tudo quando percebi o padrão,
quando entendi que teu “relacionamento à distância” era apenas conveniência...
tu bancavas tudo... e ainda assim buscavas terapia
pra curar o trauma de um amor que eu achei que fosse vivo.
Mas não era... ou talvez fosse... sei lá...
Ah... sugar daddy, fake lover, ou seja lá o nome que tu dês a isso...
tanto faz.
Agora só me resta refletir sobre o pior narcisista que já conheci...
O que ficou foi o rastro.
O desconforto de ter me despido diante de um fantasma.
De ter escrito cartas pra ninguém.
De ter chorado por alguém que só existia num IP qualquer.
Tu foste o pior dos narcisistas...
porque te apresentaste como cura, quando eras veneno.
E ainda assim, não me destruíste.
Eu sangrei, sim... mas sigo viva, lúcida,
com o mesmo instinto de quem fareja mentira à distância...
e que agora, cansada, escolhe o silêncio.
Não pra esquecer...
mas pra não desperdiçar mais verdade com quem só sabe viver de disfarce.
Eu sigo...
com a dor, com a raiva, com a coragem de ter encarado o vazio que tu deixaste.
E escrevo isso pra que, um dia, alguém prestes a cair na mesma armadilha leia e se reconheça a tempo...
pra que não acredite em palavras sem rosto...
em promessas sem corpo...
em amores que só existem enquanto a mentira dura.
Tu não existes...
mas o que fizeste foi real.
E é isso que te condena.